25/09/2011

Abismos de uma rua vazia



 Como é o mundo visto lá de cima - meu corpo preto, tremeluzente? É possível sentir o odor de sangue manchando o chão? É possível que saibam, ao verem que me equilibro no meio-fio, que penso mesmo é estar à beira de um precipício? Creio que não. Essas coisas se diluem, triviais, jamais chegam lá - morrem é por baixo, mesmo. Coisas nossas. Não que eles não saibam de mim, da gente; lá em cima muito se discute sobre o que há em baixo - imergir, não, botar o pé aqui, que horror seria. Atravessada a fronteira, talvez seja impossível ser o mesmo novamente: todo o pacifismo trivialidade salas assépticas sorrisos cumprimentos frutas de plástico num jarro verde. Digo por mim: nunca mais fui o mesmo, porque, a bem da verdade, este mesmo eu nunca fui. Quando morrermos, seremos esmagados pelo bico de um salto vermelho; nossos corpos vão virar guimba de cigarro e é só isso que importa. Hoje fumei três cigarros seguidos depois de cinco semanas sem fumar por causa da bronquite, e penso que qualquer coisa essencial que me constituía escapou junto à fumaça acidentalmente, assim numa tragada só, baforada despretensiosa. Quem sabe por isso eu me sinta tão vacilante, prestes a romper; essa noite perversa com seus prédios sinuosos e o cristo redentor dourado, indiferente; um cacho de gerânios colocados entre seus pés (estão aí já há tanto tempo e nunca murcham).
Às vezes penso que sou como aquele poste; a luz pisca inconstante. Dia desses lá estava piscando de segundo em segundo, uma hora banhando a calçada de amarelo-sol e quase no mesmo instante mergulhando-a em escuridão tão impenetrável que só podia existir se para ser iluminada logo após. É como mergulhar, segurar o fôlego, sentir a morte dedilhando as vértebras e apressadamente voltar à superfície. É como fumar três cigarros e prometer passar o resto do ano sem fumar. Às vezes a luz, como se detentora de vida própria, permanece por horas, até que, quando menos se espera, pisca de novo, ameaçando mergulhar o pedaço de calçada na escuridão eterna. 
E todo dia eu penso em mudar o trajeto; me cansaram os buritis, o cristo dourado, o cristo lá no alto, o imenso estacionamento abandonado que parece guardar em seus vazios alguma presença incorpórea, mas densa. Os grandes olhos do vazio sempre me violam. E aí, sim, me permitirei morrer sem culpa. Só pra ver se as coisas vão continuar as mesmas, sabe? Já até sei como vai ser: Com passos lentos e lassos pelo meio da avenida, enquanto o sinal estiver fechado, caminhando em direção ao farol dos carros e esperando que as cores se alterem, paciente. Aí quando o vermelho virar verde, sei que vou ouvir as buzinas me atravessando como fagulhas: os faróis vão começar a piscar. O mundo vai se dissipar  e essa mesma luz de farol que pisca vai ser como a do poste. Tudo vai se misturar e virar um grande mosaico de cores que escorre para fora de mim. Tudo eclodindo: A estrutura dura e equilibrada dos ossos vai ser atingida com força, tão dura assim como se a rigidez fosse feita para ser rompida. Minha pele e minha carne se fundindo, uma por cima da outra. Eu vou continuar arremessado no meio da avenida e ninguém vai me perceber assim tão cedo. Quando – e se - me perceberem, já vou ser represa, caudaloso pelo chão.
(e então vou saber, em um ou dois segundos, que não sou eu que me dissipo e sim o mundo.)

19/09/2011

Causa mortis.

Olá.
No fundo do meu peito, a espera eterna pela quietação. De ouvidos livres no silêncio, a espera tola pela placidez que não consegue brotar de meu peito como os ramos da tua voz que me escorrega, girando e espiralando por dentro. É que tanto me consome essa angústia que não há espaço: nos ossos, no corpo, nas veias, pesando em cada pulmão meu. Essa ausência que se perde entre muitas, vívida e gelatinosa, é a que mais me ocupa, a que mais existe como um buraco na areia – tal qual eu continuo, ainda, jogando terra para se tampar e virar parte de tudo até que não exista mais, virando sal e terra, parte do mar, parte dessa poeira que sem que percebamos se incruste a pele dos outros e vire doença deles e não minha. Sina desfragmentada em cada corpo que não é meu. Assim até que vire sombra e sobra e pertença àquele lugar onde todas as coisas não ditas descansam, onde cada olhar que não se cruza na multidão existe com mais tranqüilidade, com mais quietação.
Q-u-i-e-t-a-ç-ã-o. Parece ser uma ânsia soletrada donde cada letra tem um peso, donde cada letra não se une para solidificar o desejo. E é tudo culpa sua – tudo, tudo, tudo. Culpa desses olhos de incógnita que sempre despejavam as próprias verdades. Assim mesmo, em contradição (mas eu devo dizer que sempre acho essas pessoas com a voz tão alta e livre ao mundo são as que mais nutrem de segredos). E de forma quase inconveniente você ia se transbordando da própria superfície. T-r-a-n-s-b-o-r-d-a-n-d-o. Só assim você sabia: vazar por todos os poros e cortes e brechas abertas na pele da forma mais tortuosa possível. Você que não conseguia ser melodia propriamente (mas melodias são delicadas demais, você diria, são tão antiquadas, também!). Só sabia se traduzir como um som surdo, alto até demais, abafando-me os ouvidos, rompendo-me os tímpanos até quando as palavras saiam delicadas e comedidas. Era como se gritasse e continuasse a gritar. Como se fosse tanto excesso que se deixasse claro até nas mais frias sentenças que pareciam me quebrar e quebrar e quebrar e romper cada corda vocal minha. Minha voz se ensurdecia enquanto eu continuava a te ouvir.               
Transpirar, pra ti, talvez ainda seja “pouco demais”: Sair em gotas, em doses pequenas. Tudo isso é tão pouco, não é? Transbordar, não, é como explodir: Ser chafariz de vida, represa que leva a tudo que se posta em meio-caminho e depois se recompor até sobrar só poças cansadas de água fria. Essa agonia minha vem do paladar, vem da gengiva, das minhas papilas gustativas. Você sabe o porquê, não é? Porque ainda tenho o teu gosto na minha boca. E que tolo sou, sim? E que tolo sou! Esse gosto amargo que só já perto da garganta fica doce. Então, eu diria, é como se teu sabor fosse agridoce. E não como gosto ruim, mas como gosto forte que não sai: Daquilo que se coloca na boca e se cospe – mas o sabor continua, o gosto perdura. Esse gosto teu não pode ser aliviado porque, eu presumo, é o gosto que eu tenho também. Esse é meu sabor: o mesmo que o teu. O mesmo que se alonga da ponta da língua a garganta e que continua na saliva. Que não pode ser escovado, cuspido ou engolido. Um gosto irremediável. Eu diria que é gosto de veneno. É o teu veneno que ainda faz efeito em mim, vindo direto da boca e escalando o organismo, matando cada entranha e percorrendo cada osso, cada ponte que liga cada pedaço de existência. São esses pedaços teus, eu sei, que ainda ficaram aqui dentro. Teus resquícios jogados por cada parte de mim.
E eu só posso os sufocar se sufocar alguma parte minha junto – se prender o fôlego e me assassinar um pouco também. Só assim, só assim. É porque cada parte tua é grudada em mim, é costurada. Como sementes de ervas daninhas que me desceram a garganta e nasceram lá dentro, criando o próprio lar, supurando o próprio veneno. Infinitamente tentando te transpirar e transbordar e me perdendo no processo como se tu só te dissipasses se meu corpo fosse drenado, se cada gota de vida minha pingasse no chão, em toda sua vermelhidão. E eu tenho a plena certeza de que é assim mesmo: Eu não reclamo, eu não entristeço, não. Eu sobrevivo com cada pedaço teu e me agonia só a distância, como se não fosse, afinal, suficiente te ter dentro de mim.
Eu sei que, no fundo, você também ainda me tem aí dentro – ainda resguarda algum fôlego meu. Alguma gota do meu sangue ou molécula que pode ter te penetrado a carne. Assim, duas vidas homogêneas coexistindo dentro da outra, através de um espelho, de um reflexo, do cristalino de um riacho quando se toca a água e as mãos se encontram, sabe? Como eu, que ainda ouço os teus gritos dentro de mim, se mostrando insistentes nos momentos mais silenciosos (quase pedindo para que eu não esqueça que aqui, aqui dentro, você ainda existe e que precisa de cuidado). Eu que ainda escuto teus passos ou a tua risada derretida, que tem gosto de baunilha, ressoando no sótão ou na escadaria. Cada sombra tua que sobrou e tão cedo não será extinta. É que passamos pelos mesmos furacões juntos. Quando me estendia a mão, os dedos quentes e me puxava para aquele mar aberto que eu desconhecia, era dentro de um redemoinho. Quando me levava para algum lugar, era para a tempestade. E deve ter sido no meio de tanta desordem que, alguma hora dessas, acabamos por cair no chão e de mãos dadas nos olhamos. Nossos olhos saltando para fora das órbitas, cada veia vermelha de carne viva ilustrando o chão enquanto se uniam tépidos, e como se já não agüentassem, explodissem e virassem matéria bruta. Duas cores que, unidas, formavam um sabor (o agridoce, é claro).
E eu que até sinto falta dessas insanidades das quais eu, com orgulho bruto que antes era inexistente, enfrentava. Dando-te a mão e sentindo o cálido de teus dedos, que aliás, ainda está marcado nas minhas falanges, enquanto me guiava a cada canto sombrio de teu próprio universo. A conseqüência é que um pouquinho de tudo isso eu tive que engolir: mais do que eu esperava, certamente. E nem cuspi e nem vomitei, como uma criança obediente ingerindo um remédio ruim e semicerrando os lábios molhados. Eu acho que me embebi de ti, isso sim. O que sobrou agora é que eu não sei, meu amor.
Sei que, matematicamente falando, somos como uma equação com um erro no meio, algum equívoco desproposital. E lembra que os professores sempre dizem: não pode haver erro se não o resultado é catastrófico. Então, é, talvez sejamos o resultado: Números cheios de virgulas e pontos que nunca conseguem ser inteiros, que nunca conseguem ser sólidos e satisfeitos. Que continuam a procura de algo no meio de tudo isso. Somos uma equação – com um erro, certamente. Somos o começo certo e aquele erro indiscreto, mas acima de tudo, somos o resultado: Catastrófico e infinito. E mesmo assim, depois de tanto, dessas tempestades que enfrentamos e abismos que tropeçamos, eu me afogando em ti e você transbordando em mim, a minha agonia não é nem os teus pedaços e os teus resquícios e a tua voz assombrosa que me persegue. A minha agonia, meu amor, você sabe qual é. Como conseguimos morrer assim? Há ainda quem diga que a morte natural é a melhor causa de morte. De qualquer forma, eu ainda acho que temos um último resfolegar, sim?
            Desculpe-me o exagero – você sabe que sempre fui assim. Com amor...


17/09/2011

Olfato

Às vezes, só às vezes, eu queria ser moradia e não prisão.
Porque é desse aroma de retorno ao lar que nasce a saudade
De lavanda, leite quente e hortelã.

Mas quem há de compreender a dor de ser um lar?
A parte fácil é dar abrigo, abrir portas e persianas
Difícil mesmo é o abandono (e não o abandonar).

De lembrança há só os fios de cabelo, o perfume incrustado ao relento
Amarrada a um galho seco no quintal, a fita jogada ao vento
Convenço-me de que é assim que se sobrevive: de pedaços e não excessos.

09/09/2011

Espinha


E corre entre as veias a pressa de ser vomitado em palavras quentes. De ser, puramente, sem correntes e fluir naturalmente com aquilo que se questiona – ser a adequação reconfortante que exigem e entranhar a cada um tendo a pura ousadia de explodir. Explodir? Eu só sei eclodir constantemente: sempre ininterrupto. E eclodir deixando que cada pedaço de mim role por dentro, por cada outro pedaço de mim. A necessidade de transbordar em voz alta quando se abrem os lábios e transbordar em pressa, tal pressa desumana que se necessita e me necessita ao mesmo tempo: Eu tenho é que ser dissecado e cuspido para ser visto. Eu tenho que o ser plenamente. Mas e essa necessidade fugaz que não me pertence de repente se torna minha também: como se tudo entre todas as coisas que me afligem recorressem de influxo de um para cada um. E eu não me sei. Eu me desconheço quando falo das minhas dores. Eu me externo e me torno outro, como se tudo que viesse de dentro pra fora criasse vida própria. Eu sou uma antítese e me torno tudo o que exigem. O reflexo errôneo do espelho que se torna dois pedaços: O exigido e o exigente. Deve ser então porque não encontro meu extremo que me afundo em erros trôpegos: Porque os que exigem só exigem porque não são vitimas das exigências e os exigidos só o são porque conseguem se exigir. E eu que não me exijo, mas exijo. O egoísmo inerente de quem pede remédio às próprias feridas, mas só sabe causar ardência a ferida alheia. E tudo que é engolido e existe lá dentro eclodido quando pedem pra que saia em regurgito. Toda essa minha agonia que desconhecem está entalada na garganta. Uma espinha de peixe que atravessa a traquéia e a cada golfada de ar se move e me perfura. A cada uma dessas “palavras bonitas, meu amor, você não as conhece?” parece se amolar. E vai ficar aí, a espinha. Vai agoniar e eu vou morrer aos poucos a cada um que me deixa – que se torna meu pedaço e se cansa. Autotomia agressiva, de repente. Autotomia do qual minha pele nunca se regenera, mas nunca me revela a nudez completa porque nos momentos em que me permito ser o que exigem, a liberdade me espeta. E eu acuado. Eu quebrado. Eu que permaneço com uma espinha na garganta. Desconheço-me e deixo. Minha própria verdade me incomoda de repente. E continuo ininterrupto. Morrendo a cada parte com um sorriso displicente: porque cada um que chega também vai, isso eu sei. Porque cada um que chega me exige – ora ou outra, vez em vez. E cada um que chega também vai, isso eu sei.