28/11/2011

Homogêneo


é das tuas palavras do amor no meu peito dos meus atos vis que nasce o desejo de liberdade em transformar as cores esmagar vontades poetar sobre o tempo os dias e a vida em cada entrelinha que escrevo fazer com que tudo seja homogêneo eu você a vida ela ele nós vós eles transformados em um só conjugados como verbos anômalos formando um caudaloso bolo de tinta jogado a um quadro em branco misturado por minhas mãos sentindo-a-tinta-e-o-sangue-escorrer-entre-os-dedos assim te terei por baixo da unha assim me terei por baixo da carne seremos um só eu tu ela nós vós eles a vida as árvores as ruas aquele inseto que caminha por teu corpo enquanto dorme e sonhos e pesadelos e cores e sabores já não saberá distingui-los a linha de vidro que separa os dias se quebrará e eles serão um só se misturando como tinta água salobra e grãos de ar e enquanto olha no espelho verá o que vem o que vive já foi então o que somos agora? amanhã hoje e ontem já não saberá quais são e esse vazio loucura insanidade crescendo entre eles faz com que  as paredes se enverguem sobre mim mas nunca me esmaguem enquanto corro por corredores longos demais que nunca tem fim escorrego por abismos que nunca tem chão resvalo em canos que levam a lugar nenhum no intento do que guia entre salões sem voz meus dedos percorrem os arabescos na parede em busca da mais bela flor só que o que eu quero é mais e não me limita não me abarca não me guarda nas terminações já não cabe em mim esse amor/teço versos pois talvez eu caiba um tantinho entre/linhas com palavras doces não expressam esse grito esse choro essa dor o limite entre as coisas está apagado pontos vírgulas reticências e o que mais meu amor? já nada limita já nada limita as minhas palavras elas fluem livres como o sangue nas veias o oxigênio eu tu ele nós vós eles respirando-se assim e de repente nós somos um só em versos recônditos e afobados tropeçando entre tudo aquilo que inexiste como eu e você como a vida e como tudo o que não se sabe onde começa e onde se tem um fim


26/11/2011

Nós atados



Eu sei que somos as mesmas almas contentes
Os anos não amortecem a nossa voz estridente
Atamo-nos a nós mesmos assim: entre dentes.



16/11/2011

Bestial

Enlaço-me num mundo sem retorno
Em nós atados.
Eu sei que desato meus atos
Com dentes na carne cravados.


O que nos guarda é bestial
Ou seria bestial o que eu guardo?

Eu que desejo prisão 
Em vez de moradia
Dor no invólucro 
Pra quebrar a letargia


A cidade é redoma de vidro
Sobrevivo por trás dos mais vis sorrisos
Sou ainda mais limpo do que pareço?
Pois por dentro tão lento apodreço...


Esse demônio persegue 
Com seus dedos nos meus
Com seus dentes na carne
Com os olhos nos seus.


A minha sede ultrapassa
Essa dor não me abarca
Essa fome é insatisfação.


Ah, essa sede
Essa dor
Essa fome por ti.

Que me perdoe
Se eu te prender no meu peito profundo


Que me sorria 
Quando entregar-te os meus atos imundos.

09/11/2011

Rosa



Não peço muito. Não tanto que não possa responder, Rosa! Só me diga, com a tua mais bruta sinceridade, se há um modo certo de existir. Que não venha a ser tão pleno que de tão pleno é vazio e que não seja, também, assim tão cru que traga o desamor aos dias. Eu sei que, num mundo tão vasto, há questionamentos mais complexos do que esse - e que, mesmo ao seu modo, você saberia responder. Ah, Rosa, só não sabes mesmo responder as próprias questões (tão insolúveis quanto as do próprio universo) mas as minhas, as que mais me destroem, são para ti como enigmas fáceis. 

Às vezes suspeito que talvez, só talvez, eu devesse existir da forma que você existe (para ser mais prático): vendo mais sonho onde há vida; sonhando lugares, livros e pessoas; suspirando, sim, que vida é para ser sonhada. Que nós somos os solutos de uma existência heterogênea. 

Os teus dias compassados, demarcados nos calendários de lojas abertas na avenida, nas salas de paredes brancas ou em livrarias: Não há nada mais heterogêneo do que eles, senhorita! Tão intrínsecos. E tão ins(usten)táveis, sim. Mas já não sei como sonhar a vida sem tropeçar em uma ou outra questão que me acorde de supetão, como um incômodo despertador que toca, exatamente, às seis da manhã e diz que vida está ali para ser vivida. Mas, meu amor, eu sei que é assim: se os dias são mais oníricos ou mais reais, isso depende de mim.

Sabe que, do modo mais incômodo, a tua ausência se tornou algo parecido com fumaças e espelhos. E que, quase acidentalmente, não foi você que começou a sonhar a vida, Rosa, mas ela que começou a te sonhar. Como se parte da grandeza que te sustenta tivesse de ser onírica para que a tua existência pudesse ser inteira. É confuso, eu sei, mas sonhos costumam ser assim: E você, Rosa, é como um. É do teu feitio essa intensidade que o calendário não abarca e que o tempo não pode comedir. Talvez com os anos as tuas ferocidades se acalmem, mas duvido disso. Os meus dias precisam de algo novo, você diz, pois viraram matéria liquefeita. Os meus dias começaram a ser como sonhos, senhor, você continua, e começo a acreditar que vida tem de ser sonhada.

Mas ah, Rosa! Aí há um erro: Volto a repetir que em um sonho tudo está, de certo modo, suspenso. E que nós dois, eu e você, sonhando a vida, somos os solutos ao fundo, como se nosso peso houvesse nos afundado. Nós e a vida: água e óleo. E suspensa a vida está: aguardando com inquietação o dia em que nos juntaremos como dois iguais. O dia em que, quimicamente falando, seremos puramente homogêneos. 

Bem, não há muito o que dizer. Queria só que compreendesse, Rosa, quando digo que a vida é muito pequena para ti, que o tempo é como a areia que escorre rápida na ampulheta e que, um dia, quando a morte te abater o rosto, você ainda existirá a sua própria forma.

Ah, garota, você é grande demais até para ser humana: e não me leve a mal. Você é mais como uma sensação. Não das mais agradáveis, decerto. Mas são os piores sabores os que mais demarcam as papilas humanas; são as unhas mais afiadas que hoje formam as cicatrizes que nos protegem com seus velhos fantasmas. E você, Rosa, é uma sensação passageira, mas intensa; repentina, sim; destruidora como as ventanias de inverno. Deixa sempre esse vazio que tudo aquilo que exige muito espaço deixa, depois de partir. Sei que, quando todas as memórias vazarem de mim junto a sanidade rala, só uma sobrará e será como uma sensação: a imagem dos teus cabelos ruivos escorrendo como sangue quente pela pele pálida. Mas não se preocupe: de cabelos longos ou pretos, ruivos ou bagunçados, curtos ou castanhos, você continuaria como essa sensação um tanto curiosa. Algo meio empírico. Algo meio onírico.

Mas ainda te aguardo da mesma forma. Com a mímica, com o peso, com a voz. Com os sonhos. Tentando existir da forma mais conveniente, mas ainda sentindo a dor em todas as vertentes. É assim mesmo, eu sei, é um tanto necessário.

E talvez não haja forma certa de viver, afinal.

(Rosa, eu espero que ainda lembre de mim, depois de tudo - apesar do tempo, apesar do agora, apesar da ausência. O teu rosto onírico a minha existência guarda. A minha voz é muda, mas minh'alma é vasta.)

03/11/2011

Uma das vozes (de uma sinfonia maior).



(É um modo, eu diria, um medo da própria voz -  que me invade como as sombras de algo que já morreu. Minha voz que mata tudo ou diminui o que há de grande demais dentro de mim).