26/12/2011

Densidade

Gotas d’água
Sobre meus cílios
Grãos de sal
Sob o palato
No meu sangue
Correnteza
Voz ecoa
Entre corais
Mão afunda
Na areia
Rispidez
Conchas quebradas
É verão, a moça diz
É verão, o sol derrete
Cada gota salobra
Escorre na pele.
E meus dedos
Misturados à espuma
E minha alma
Clandestina
Em mar aberto.
E pulmões transbordando
Água salgada.

13/12/2011

Ébrio

liberte-me: 
desses teus olhos ébrios 
tu estendes dedos tortos para puxar-me à desordeira multidão
diga: 
vamos voltar para tempos de sinfonias sem ordem!
onde notas escorrem, fervendo em nuances
preenchendo-nos de novas cores
entre a vida e o transe.
nós: 
ululantes como luzes natalinas na avenida-catedral
árvores farfalham como se vossos espectros atravessassem-nas
vamos voltar para os tempos sem métrica, onde tudo era vida!
e só vida, sem ordem, sem cor, sem definição
sem tabus nos prendendo como se não houvesse barreiras
e o que há, meu amor, senão postes monumentais
muros de madeira?
vamos: 
voltar a 1900 ou a dias cinzentos
qualquer um desses que tu quiseres 
só não prometo que te espero retornar.
sinta: 
o gosto do mar
estamos por lá 
mesmo que seja tão amplo
sempre voltamos à margem
misturados a espuma, ao sal, ao sol, ao ar. 
venha: 
eu sei que queres voltar aos tempos oníricos
embriagando-se dos fluidos ébrios de nós dois 
podemos ainda fazer sentido
mas isso depende de ti.
abrace-me: 
a sinfonia começou novamente a tocar
vamos cantarolar essa melodia que tanto conhecemos
mesmo que, entre tantos oboés, nossa voz seja muda.
quando o encanto quebrar, nós saberemos
aquele cinema antigo e abandonado nos dará abrigo
por trás de suas cortinas 
como se fôssemos um filme antigo
e lá fora, o mundo vai ser um sussurro
um cântico
um grito...