liberte-me:
desses teus olhos ébrios
tu estendes dedos tortos para puxar-me à desordeira multidão
diga:
vamos voltar para tempos de sinfonias sem ordem!
onde notas escorrem, fervendo em nuances
preenchendo-nos de novas cores
entre a vida e o transe.
nós:
ululantes como luzes natalinas na avenida-catedral
árvores farfalham como se vossos espectros atravessassem-nas
vamos voltar para os tempos sem métrica, onde tudo era vida!
e só vida, sem ordem, sem cor, sem definição
sem tabus nos prendendo como se não houvesse barreiras
e o que há, meu amor, senão postes monumentais
muros de madeira?
vamos:
voltar a 1900 ou a dias cinzentos
qualquer um desses que tu quiseres
só não prometo que te espero retornar.
sinta:
o gosto do mar
estamos por lá
mesmo que seja tão amplo
sempre voltamos à margem
misturados a espuma, ao sal, ao sol, ao ar.
venha:
eu sei que queres voltar aos tempos oníricos
embriagando-se dos fluidos ébrios de nós dois
podemos ainda fazer sentido
mas isso depende de ti.
abrace-me:
a sinfonia começou novamente a tocar
vamos cantarolar essa melodia que tanto conhecemos
mesmo que, entre tantos oboés, nossa voz seja muda.
quando o encanto quebrar, nós saberemos
aquele cinema antigo e abandonado nos dará abrigo
por trás de suas cortinas
como se fôssemos um filme antigo
e lá fora, o mundo vai ser um sussurro
um cântico
um grito...