15/03/2015

poema fronteiriço


recue enquanto é tempo
à pátria-mãe que te chama
dê estes braços fervorosos
aos que ainda te clamam
guarde a vivacidade que resta
aos que a buscam
pois aqui, uma vez ultrapassada a linha
jamais se encontra retorno.

para além do limiar que tuas mãos forçam
apocalípticas vozes consomem o ar
carcaças de azarados exploradores
enfeitam as varandas queimadas
um crocitar premedita maus agouros.

na terra prometida
as palavras bonitas
são ilusões que te sugam
ao vazio. 


12/03/2015

corpo fechado


nada resta de mim
diante dos braços
que me envolvem lassos
ou sob os olhos
que me enlaçam ternos 
e procuram gastos 
o ardor sincero 
dentro em mim.

essas mãos exploram
meu corpo fechado
buscam tontas
num langor de atos
resquícios deixados
do que sobra de mim.

saliva salgada nas faces
língua úmida percorre esta carne
num desespero sem fim
e caça amuada, atormentada 
dançando em terra caiada
as evidências de que algum dia
eu me movi de dentro de mim.

10/03/2015

desde então


essas esquinas abrigam meu corpo fechado
dia após dia, o rumo fadado
de um destino traçado sobre desatinos.
eu bicho acuado desde então
fremindo sob simplicidades
buscando fatalidades
que me brutalizem
a carne 
fugaz e dormente. 
nada acho:
desde então, não há lugar para mim.
o que tive, tive
entre as palmas já não cabe
um outro igual.
cada instante vivido desde então é tentativa
cada palavra, uma fuga
todo corpo uma busca
pelo encaixe do teu.


01/03/2015

transcenda


através dos dias
é preciso escorrer
e jamais ultrapassá-los.

desatentar-se
do compasso das horas
serpenteando 
no entorno do círculo
que traiçoeiramente
contorna os passos.