11/01/2016

letal

decadência que nem polida reza disfarça.

que já não me serve adiar irascíveis fomes
e comprimir teu corpo contra o chão
de violências convulsiono, reversivo
inquieta língua lambe a ponta do gatilho
pulsa o cabo por final deflagração.
o cano descansa entre os lábios:
acato o corpo letal, aceito as fomes que matam
como quem já não se tem velado
farejo o tiro final
estampido corta a noite
e num gemido desabo
ao meu lado o corpo cessado
e pela garganta escorrendo
liberdade

09/01/2016

das breves soluções

prostro-me em ti
pois só através dos teus olhos
vagar no mundo é rodear com passo leve
mão entregue
incorpóreo.

o que te faz assim? 
manejaria, eu, existir assim?
pois sobre as dores nada é dito
que eu já não saiba, nunca.

teus modos, teus caprichos, fazem até parecer 
que vaguear neste mundo 
é valsar com mistérios
sob cada passo, ametistas
verdades sacrílegas 
tesouros de tempos imemoriais. 

mas o que te faz assim? 
conseguiria, eu, persistir assim? 
flores e rezas, armistícios? 
a queda de uma pluma sobre o precipício?

o peso que leva contigo passa - é teu alerta.
coisa nossa, vantagem de ser, é a efemeridade.
e eles estão certos quando dizem 
que respirar fundo é a solução. 

08/01/2016

34º


cidade encharca
corpos fluidos
saliva e lágrimas
infla e solta
concreta e dura
mole e flácida

rastejando como lesma
sobre o jardim sujo
piche fresco
pátio imundo

todos os corpos desfeitos
escorrem em tons de vermelho
bege e negro
carne a carne
corpo a corpo
outro a outro
escoando através das luzes
da estátua
raízes retorcidas
clara e opaca
toras secas
terracota
carros, ônibus

redemoinhando lamacentos
até o mar desnudo.