10/10/2016

faço do meio-fio a beira de um abismo

faço do meio-fio a beira de um abismo
corda que bambas as pernas cruzam 
cientes de que jamais chegarão ao fim;
vivo este dia como se fosse
assim tão longo que permitisse
que eu me escorasse dormisse deitasse
em qualquer lugar que encosto
sem pensar na hora que virá;
faço deste dia, assim como fiz dos outros
o dia que decidirá se persistirei ou não;
faço do corpo do outro
oceano
em que mergulho e me afogo
e me convenço 
de que meu amor
é mais do que o puro egoísmo dos poetas
e mais uma vez
me engano;
faço de tudo para que as banalidades
não nos tornem mais um caso comum
narrado na mesa de bar
mas ando crendo
que a bossa-nova é não mais que isso
e basta rir
fazer com o que o meio-fio 
seja esnível a se cruzar
que este dia que vivo 
seja idêntico ao que virá
aceitar que o corpo em que mergulho
me aprisiono e amo
hoje ou amanhã deixarei de amar
e nada haverá nisso de tão letal
que outro meio-fio
outro dia
ou outro corpo
não cure.