17/06/2017

o silêncio entre os corpos

[coléricas chupadas
sob a parca luz
de salas sujas
disfarçam o silêncio
que se estende entre os corpos;
uma gota do gozo
dissolvida 
sobre a superfície do dia
torna turva a visão da verdade

crua resolução:
deixada para depois
de homéricas trepadas
em salas frias

língua-circula-quente
acima, abaixo
ao centro, adentro
um, dois, três
até que se sinta
o cítrico gosto 
do nada

a voz, disforme e pantanosa, se cala:
nada há de ser dito
que eu queira saber
ou já não saiba]

15/06/2017

do bico da garça ao estômago da besta

o abismo cavado entre os corpos
se alarga e por ele escorregamos
risonhos e ásperos, como quem 
sempre soube que seria assim:
rinocerontes marchando contra a correnteza;
peixes franzinos levados do bico da garça 
ao estômago da besta

se não fosse assim desde o início 
talvez não fosse, a princípio. 
e aí restaria a paz asséptica, sintética
de cômodos vazios
e lençois limpos estendidos 
sobre vermelhas fúrias

não haveria lambida felina ferindo a pele
unhas angulares penetrando reentrâncias
sem pelos escorrendo pelo ralo
dia após dia como se nada houvesse
além disso:
corpos tateando espaços
para poderem se pertencer.

[na beira do precipício
quem testemunhar a queda
jamais saberá que poucos descaminhos
foram tão felizes]