26/12/2011

Densidade

Gotas d’água
Sobre meus cílios
Grãos de sal
Sob o palato
No meu sangue
Correnteza
Voz ecoa
Entre corais
Mão afunda
Na areia
Rispidez
Conchas quebradas
É verão, a moça diz
É verão, o sol derrete
Cada gota salobra
Escorre na pele.
E meus dedos
Misturados à espuma
E minha alma
Clandestina
Em mar aberto.
E pulmões transbordando
Água salgada.

13/12/2011

Ébrio

liberte-me: 
desses teus olhos ébrios 
tu estendes dedos tortos para puxar-me à desordeira multidão
diga: 
vamos voltar para tempos de sinfonias sem ordem!
onde notas escorrem, fervendo em nuances
preenchendo-nos de novas cores
entre a vida e o transe.
nós: 
ululantes como luzes natalinas na avenida-catedral
árvores farfalham como se vossos espectros atravessassem-nas
vamos voltar para os tempos sem métrica, onde tudo era vida!
e só vida, sem ordem, sem cor, sem definição
sem tabus nos prendendo como se não houvesse barreiras
e o que há, meu amor, senão postes monumentais
muros de madeira?
vamos: 
voltar a 1900 ou a dias cinzentos
qualquer um desses que tu quiseres 
só não prometo que te espero retornar.
sinta: 
o gosto do mar
estamos por lá 
mesmo que seja tão amplo
sempre voltamos à margem
misturados a espuma, ao sal, ao sol, ao ar. 
venha: 
eu sei que queres voltar aos tempos oníricos
embriagando-se dos fluidos ébrios de nós dois 
podemos ainda fazer sentido
mas isso depende de ti.
abrace-me: 
a sinfonia começou novamente a tocar
vamos cantarolar essa melodia que tanto conhecemos
mesmo que, entre tantos oboés, nossa voz seja muda.
quando o encanto quebrar, nós saberemos
aquele cinema antigo e abandonado nos dará abrigo
por trás de suas cortinas 
como se fôssemos um filme antigo
e lá fora, o mundo vai ser um sussurro
um cântico
um grito...

28/11/2011

Homogêneo


é das tuas palavras do amor no meu peito dos meus atos vis que nasce o desejo de liberdade em transformar as cores esmagar vontades poetar sobre o tempo os dias e a vida em cada entrelinha que escrevo fazer com que tudo seja homogêneo eu você a vida ela ele nós vós eles transformados em um só conjugados como verbos anômalos formando um caudaloso bolo de tinta jogado a um quadro em branco misturado por minhas mãos sentindo-a-tinta-e-o-sangue-escorrer-entre-os-dedos assim te terei por baixo da unha assim me terei por baixo da carne seremos um só eu tu ela nós vós eles a vida as árvores as ruas aquele inseto que caminha por teu corpo enquanto dorme e sonhos e pesadelos e cores e sabores já não saberá distingui-los a linha de vidro que separa os dias se quebrará e eles serão um só se misturando como tinta água salobra e grãos de ar e enquanto olha no espelho verá o que vem o que vive já foi então o que somos agora? amanhã hoje e ontem já não saberá quais são e esse vazio loucura insanidade crescendo entre eles faz com que  as paredes se enverguem sobre mim mas nunca me esmaguem enquanto corro por corredores longos demais que nunca tem fim escorrego por abismos que nunca tem chão resvalo em canos que levam a lugar nenhum no intento do que guia entre salões sem voz meus dedos percorrem os arabescos na parede em busca da mais bela flor só que o que eu quero é mais e não me limita não me abarca não me guarda nas terminações já não cabe em mim esse amor/teço versos pois talvez eu caiba um tantinho entre/linhas com palavras doces não expressam esse grito esse choro essa dor o limite entre as coisas está apagado pontos vírgulas reticências e o que mais meu amor? já nada limita já nada limita as minhas palavras elas fluem livres como o sangue nas veias o oxigênio eu tu ele nós vós eles respirando-se assim e de repente nós somos um só em versos recônditos e afobados tropeçando entre tudo aquilo que inexiste como eu e você como a vida e como tudo o que não se sabe onde começa e onde se tem um fim


26/11/2011

Nós atados



Eu sei que somos as mesmas almas contentes
Os anos não amortecem a nossa voz estridente
Atamo-nos a nós mesmos assim: entre dentes.



16/11/2011

Bestial

Enlaço-me num mundo sem retorno
Em nós atados.
Eu sei que desato meus atos
Com dentes na carne cravados.


O que nos guarda é bestial
Ou seria bestial o que eu guardo?

Eu que desejo prisão 
Em vez de moradia
Dor no invólucro 
Pra quebrar a letargia


A cidade é redoma de vidro
Sobrevivo por trás dos mais vis sorrisos
Sou ainda mais limpo do que pareço?
Pois por dentro tão lento apodreço...


Esse demônio persegue 
Com seus dedos nos meus
Com seus dentes na carne
Com os olhos nos seus.


A minha sede ultrapassa
Essa dor não me abarca
Essa fome é insatisfação.


Ah, essa sede
Essa dor
Essa fome por ti.

Que me perdoe
Se eu te prender no meu peito profundo


Que me sorria 
Quando entregar-te os meus atos imundos.

09/11/2011

Rosa



Não peço muito. Não tanto que não possa responder, Rosa! Só me diga, com a tua mais bruta sinceridade, se há um modo certo de existir. Que não venha a ser tão pleno que de tão pleno é vazio e que não seja, também, assim tão cru que traga o desamor aos dias. Eu sei que, num mundo tão vasto, há questionamentos mais complexos do que esse - e que, mesmo ao seu modo, você saberia responder. Ah, Rosa, só não sabes mesmo responder as próprias questões (tão insolúveis quanto as do próprio universo) mas as minhas, as que mais me destroem, são para ti como enigmas fáceis. 

Às vezes suspeito que talvez, só talvez, eu devesse existir da forma que você existe (para ser mais prático): vendo mais sonho onde há vida; sonhando lugares, livros e pessoas; suspirando, sim, que vida é para ser sonhada. Que nós somos os solutos de uma existência heterogênea. 

Os teus dias compassados, demarcados nos calendários de lojas abertas na avenida, nas salas de paredes brancas ou em livrarias: Não há nada mais heterogêneo do que eles, senhorita! Tão intrínsecos. E tão ins(usten)táveis, sim. Mas já não sei como sonhar a vida sem tropeçar em uma ou outra questão que me acorde de supetão, como um incômodo despertador que toca, exatamente, às seis da manhã e diz que vida está ali para ser vivida. Mas, meu amor, eu sei que é assim: se os dias são mais oníricos ou mais reais, isso depende de mim.

Sabe que, do modo mais incômodo, a tua ausência se tornou algo parecido com fumaças e espelhos. E que, quase acidentalmente, não foi você que começou a sonhar a vida, Rosa, mas ela que começou a te sonhar. Como se parte da grandeza que te sustenta tivesse de ser onírica para que a tua existência pudesse ser inteira. É confuso, eu sei, mas sonhos costumam ser assim: E você, Rosa, é como um. É do teu feitio essa intensidade que o calendário não abarca e que o tempo não pode comedir. Talvez com os anos as tuas ferocidades se acalmem, mas duvido disso. Os meus dias precisam de algo novo, você diz, pois viraram matéria liquefeita. Os meus dias começaram a ser como sonhos, senhor, você continua, e começo a acreditar que vida tem de ser sonhada.

Mas ah, Rosa! Aí há um erro: Volto a repetir que em um sonho tudo está, de certo modo, suspenso. E que nós dois, eu e você, sonhando a vida, somos os solutos ao fundo, como se nosso peso houvesse nos afundado. Nós e a vida: água e óleo. E suspensa a vida está: aguardando com inquietação o dia em que nos juntaremos como dois iguais. O dia em que, quimicamente falando, seremos puramente homogêneos. 

Bem, não há muito o que dizer. Queria só que compreendesse, Rosa, quando digo que a vida é muito pequena para ti, que o tempo é como a areia que escorre rápida na ampulheta e que, um dia, quando a morte te abater o rosto, você ainda existirá a sua própria forma.

Ah, garota, você é grande demais até para ser humana: e não me leve a mal. Você é mais como uma sensação. Não das mais agradáveis, decerto. Mas são os piores sabores os que mais demarcam as papilas humanas; são as unhas mais afiadas que hoje formam as cicatrizes que nos protegem com seus velhos fantasmas. E você, Rosa, é uma sensação passageira, mas intensa; repentina, sim; destruidora como as ventanias de inverno. Deixa sempre esse vazio que tudo aquilo que exige muito espaço deixa, depois de partir. Sei que, quando todas as memórias vazarem de mim junto a sanidade rala, só uma sobrará e será como uma sensação: a imagem dos teus cabelos ruivos escorrendo como sangue quente pela pele pálida. Mas não se preocupe: de cabelos longos ou pretos, ruivos ou bagunçados, curtos ou castanhos, você continuaria como essa sensação um tanto curiosa. Algo meio empírico. Algo meio onírico.

Mas ainda te aguardo da mesma forma. Com a mímica, com o peso, com a voz. Com os sonhos. Tentando existir da forma mais conveniente, mas ainda sentindo a dor em todas as vertentes. É assim mesmo, eu sei, é um tanto necessário.

E talvez não haja forma certa de viver, afinal.

(Rosa, eu espero que ainda lembre de mim, depois de tudo - apesar do tempo, apesar do agora, apesar da ausência. O teu rosto onírico a minha existência guarda. A minha voz é muda, mas minh'alma é vasta.)

03/11/2011

Uma das vozes (de uma sinfonia maior).



(É um modo, eu diria, um medo da própria voz -  que me invade como as sombras de algo que já morreu. Minha voz que mata tudo ou diminui o que há de grande demais dentro de mim).


25/09/2011

Abismos de uma rua vazia



 Como é o mundo visto lá de cima - meu corpo preto, tremeluzente? É possível sentir o odor de sangue manchando o chão? É possível que saibam, ao verem que me equilibro no meio-fio, que penso mesmo é estar à beira de um precipício? Creio que não. Essas coisas se diluem, triviais, jamais chegam lá - morrem é por baixo, mesmo. Coisas nossas. Não que eles não saibam de mim, da gente; lá em cima muito se discute sobre o que há em baixo - imergir, não, botar o pé aqui, que horror seria. Atravessada a fronteira, talvez seja impossível ser o mesmo novamente: todo o pacifismo trivialidade salas assépticas sorrisos cumprimentos frutas de plástico num jarro verde. Digo por mim: nunca mais fui o mesmo, porque, a bem da verdade, este mesmo eu nunca fui. Quando morrermos, seremos esmagados pelo bico de um salto vermelho; nossos corpos vão virar guimba de cigarro e é só isso que importa. Hoje fumei três cigarros seguidos depois de cinco semanas sem fumar por causa da bronquite, e penso que qualquer coisa essencial que me constituía escapou junto à fumaça acidentalmente, assim numa tragada só, baforada despretensiosa. Quem sabe por isso eu me sinta tão vacilante, prestes a romper; essa noite perversa com seus prédios sinuosos e o cristo redentor dourado, indiferente; um cacho de gerânios colocados entre seus pés (estão aí já há tanto tempo e nunca murcham).
Às vezes penso que sou como aquele poste; a luz pisca inconstante. Dia desses lá estava piscando de segundo em segundo, uma hora banhando a calçada de amarelo-sol e quase no mesmo instante mergulhando-a em escuridão tão impenetrável que só podia existir se para ser iluminada logo após. É como mergulhar, segurar o fôlego, sentir a morte dedilhando as vértebras e apressadamente voltar à superfície. É como fumar três cigarros e prometer passar o resto do ano sem fumar. Às vezes a luz, como se detentora de vida própria, permanece por horas, até que, quando menos se espera, pisca de novo, ameaçando mergulhar o pedaço de calçada na escuridão eterna. 
E todo dia eu penso em mudar o trajeto; me cansaram os buritis, o cristo dourado, o cristo lá no alto, o imenso estacionamento abandonado que parece guardar em seus vazios alguma presença incorpórea, mas densa. Os grandes olhos do vazio sempre me violam. E aí, sim, me permitirei morrer sem culpa. Só pra ver se as coisas vão continuar as mesmas, sabe? Já até sei como vai ser: Com passos lentos e lassos pelo meio da avenida, enquanto o sinal estiver fechado, caminhando em direção ao farol dos carros e esperando que as cores se alterem, paciente. Aí quando o vermelho virar verde, sei que vou ouvir as buzinas me atravessando como fagulhas: os faróis vão começar a piscar. O mundo vai se dissipar  e essa mesma luz de farol que pisca vai ser como a do poste. Tudo vai se misturar e virar um grande mosaico de cores que escorre para fora de mim. Tudo eclodindo: A estrutura dura e equilibrada dos ossos vai ser atingida com força, tão dura assim como se a rigidez fosse feita para ser rompida. Minha pele e minha carne se fundindo, uma por cima da outra. Eu vou continuar arremessado no meio da avenida e ninguém vai me perceber assim tão cedo. Quando – e se - me perceberem, já vou ser represa, caudaloso pelo chão.
(e então vou saber, em um ou dois segundos, que não sou eu que me dissipo e sim o mundo.)

19/09/2011

Causa mortis.

Olá.
No fundo do meu peito, a espera eterna pela quietação. De ouvidos livres no silêncio, a espera tola pela placidez que não consegue brotar de meu peito como os ramos da tua voz que me escorrega, girando e espiralando por dentro. É que tanto me consome essa angústia que não há espaço: nos ossos, no corpo, nas veias, pesando em cada pulmão meu. Essa ausência que se perde entre muitas, vívida e gelatinosa, é a que mais me ocupa, a que mais existe como um buraco na areia – tal qual eu continuo, ainda, jogando terra para se tampar e virar parte de tudo até que não exista mais, virando sal e terra, parte do mar, parte dessa poeira que sem que percebamos se incruste a pele dos outros e vire doença deles e não minha. Sina desfragmentada em cada corpo que não é meu. Assim até que vire sombra e sobra e pertença àquele lugar onde todas as coisas não ditas descansam, onde cada olhar que não se cruza na multidão existe com mais tranqüilidade, com mais quietação.
Q-u-i-e-t-a-ç-ã-o. Parece ser uma ânsia soletrada donde cada letra tem um peso, donde cada letra não se une para solidificar o desejo. E é tudo culpa sua – tudo, tudo, tudo. Culpa desses olhos de incógnita que sempre despejavam as próprias verdades. Assim mesmo, em contradição (mas eu devo dizer que sempre acho essas pessoas com a voz tão alta e livre ao mundo são as que mais nutrem de segredos). E de forma quase inconveniente você ia se transbordando da própria superfície. T-r-a-n-s-b-o-r-d-a-n-d-o. Só assim você sabia: vazar por todos os poros e cortes e brechas abertas na pele da forma mais tortuosa possível. Você que não conseguia ser melodia propriamente (mas melodias são delicadas demais, você diria, são tão antiquadas, também!). Só sabia se traduzir como um som surdo, alto até demais, abafando-me os ouvidos, rompendo-me os tímpanos até quando as palavras saiam delicadas e comedidas. Era como se gritasse e continuasse a gritar. Como se fosse tanto excesso que se deixasse claro até nas mais frias sentenças que pareciam me quebrar e quebrar e quebrar e romper cada corda vocal minha. Minha voz se ensurdecia enquanto eu continuava a te ouvir.               
Transpirar, pra ti, talvez ainda seja “pouco demais”: Sair em gotas, em doses pequenas. Tudo isso é tão pouco, não é? Transbordar, não, é como explodir: Ser chafariz de vida, represa que leva a tudo que se posta em meio-caminho e depois se recompor até sobrar só poças cansadas de água fria. Essa agonia minha vem do paladar, vem da gengiva, das minhas papilas gustativas. Você sabe o porquê, não é? Porque ainda tenho o teu gosto na minha boca. E que tolo sou, sim? E que tolo sou! Esse gosto amargo que só já perto da garganta fica doce. Então, eu diria, é como se teu sabor fosse agridoce. E não como gosto ruim, mas como gosto forte que não sai: Daquilo que se coloca na boca e se cospe – mas o sabor continua, o gosto perdura. Esse gosto teu não pode ser aliviado porque, eu presumo, é o gosto que eu tenho também. Esse é meu sabor: o mesmo que o teu. O mesmo que se alonga da ponta da língua a garganta e que continua na saliva. Que não pode ser escovado, cuspido ou engolido. Um gosto irremediável. Eu diria que é gosto de veneno. É o teu veneno que ainda faz efeito em mim, vindo direto da boca e escalando o organismo, matando cada entranha e percorrendo cada osso, cada ponte que liga cada pedaço de existência. São esses pedaços teus, eu sei, que ainda ficaram aqui dentro. Teus resquícios jogados por cada parte de mim.
E eu só posso os sufocar se sufocar alguma parte minha junto – se prender o fôlego e me assassinar um pouco também. Só assim, só assim. É porque cada parte tua é grudada em mim, é costurada. Como sementes de ervas daninhas que me desceram a garganta e nasceram lá dentro, criando o próprio lar, supurando o próprio veneno. Infinitamente tentando te transpirar e transbordar e me perdendo no processo como se tu só te dissipasses se meu corpo fosse drenado, se cada gota de vida minha pingasse no chão, em toda sua vermelhidão. E eu tenho a plena certeza de que é assim mesmo: Eu não reclamo, eu não entristeço, não. Eu sobrevivo com cada pedaço teu e me agonia só a distância, como se não fosse, afinal, suficiente te ter dentro de mim.
Eu sei que, no fundo, você também ainda me tem aí dentro – ainda resguarda algum fôlego meu. Alguma gota do meu sangue ou molécula que pode ter te penetrado a carne. Assim, duas vidas homogêneas coexistindo dentro da outra, através de um espelho, de um reflexo, do cristalino de um riacho quando se toca a água e as mãos se encontram, sabe? Como eu, que ainda ouço os teus gritos dentro de mim, se mostrando insistentes nos momentos mais silenciosos (quase pedindo para que eu não esqueça que aqui, aqui dentro, você ainda existe e que precisa de cuidado). Eu que ainda escuto teus passos ou a tua risada derretida, que tem gosto de baunilha, ressoando no sótão ou na escadaria. Cada sombra tua que sobrou e tão cedo não será extinta. É que passamos pelos mesmos furacões juntos. Quando me estendia a mão, os dedos quentes e me puxava para aquele mar aberto que eu desconhecia, era dentro de um redemoinho. Quando me levava para algum lugar, era para a tempestade. E deve ter sido no meio de tanta desordem que, alguma hora dessas, acabamos por cair no chão e de mãos dadas nos olhamos. Nossos olhos saltando para fora das órbitas, cada veia vermelha de carne viva ilustrando o chão enquanto se uniam tépidos, e como se já não agüentassem, explodissem e virassem matéria bruta. Duas cores que, unidas, formavam um sabor (o agridoce, é claro).
E eu que até sinto falta dessas insanidades das quais eu, com orgulho bruto que antes era inexistente, enfrentava. Dando-te a mão e sentindo o cálido de teus dedos, que aliás, ainda está marcado nas minhas falanges, enquanto me guiava a cada canto sombrio de teu próprio universo. A conseqüência é que um pouquinho de tudo isso eu tive que engolir: mais do que eu esperava, certamente. E nem cuspi e nem vomitei, como uma criança obediente ingerindo um remédio ruim e semicerrando os lábios molhados. Eu acho que me embebi de ti, isso sim. O que sobrou agora é que eu não sei, meu amor.
Sei que, matematicamente falando, somos como uma equação com um erro no meio, algum equívoco desproposital. E lembra que os professores sempre dizem: não pode haver erro se não o resultado é catastrófico. Então, é, talvez sejamos o resultado: Números cheios de virgulas e pontos que nunca conseguem ser inteiros, que nunca conseguem ser sólidos e satisfeitos. Que continuam a procura de algo no meio de tudo isso. Somos uma equação – com um erro, certamente. Somos o começo certo e aquele erro indiscreto, mas acima de tudo, somos o resultado: Catastrófico e infinito. E mesmo assim, depois de tanto, dessas tempestades que enfrentamos e abismos que tropeçamos, eu me afogando em ti e você transbordando em mim, a minha agonia não é nem os teus pedaços e os teus resquícios e a tua voz assombrosa que me persegue. A minha agonia, meu amor, você sabe qual é. Como conseguimos morrer assim? Há ainda quem diga que a morte natural é a melhor causa de morte. De qualquer forma, eu ainda acho que temos um último resfolegar, sim?
            Desculpe-me o exagero – você sabe que sempre fui assim. Com amor...


17/09/2011

Olfato

Às vezes, só às vezes, eu queria ser moradia e não prisão.
Porque é desse aroma de retorno ao lar que nasce a saudade
De lavanda, leite quente e hortelã.

Mas quem há de compreender a dor de ser um lar?
A parte fácil é dar abrigo, abrir portas e persianas
Difícil mesmo é o abandono (e não o abandonar).

De lembrança há só os fios de cabelo, o perfume incrustado ao relento
Amarrada a um galho seco no quintal, a fita jogada ao vento
Convenço-me de que é assim que se sobrevive: de pedaços e não excessos.

09/09/2011

Espinha


E corre entre as veias a pressa de ser vomitado em palavras quentes. De ser, puramente, sem correntes e fluir naturalmente com aquilo que se questiona – ser a adequação reconfortante que exigem e entranhar a cada um tendo a pura ousadia de explodir. Explodir? Eu só sei eclodir constantemente: sempre ininterrupto. E eclodir deixando que cada pedaço de mim role por dentro, por cada outro pedaço de mim. A necessidade de transbordar em voz alta quando se abrem os lábios e transbordar em pressa, tal pressa desumana que se necessita e me necessita ao mesmo tempo: Eu tenho é que ser dissecado e cuspido para ser visto. Eu tenho que o ser plenamente. Mas e essa necessidade fugaz que não me pertence de repente se torna minha também: como se tudo entre todas as coisas que me afligem recorressem de influxo de um para cada um. E eu não me sei. Eu me desconheço quando falo das minhas dores. Eu me externo e me torno outro, como se tudo que viesse de dentro pra fora criasse vida própria. Eu sou uma antítese e me torno tudo o que exigem. O reflexo errôneo do espelho que se torna dois pedaços: O exigido e o exigente. Deve ser então porque não encontro meu extremo que me afundo em erros trôpegos: Porque os que exigem só exigem porque não são vitimas das exigências e os exigidos só o são porque conseguem se exigir. E eu que não me exijo, mas exijo. O egoísmo inerente de quem pede remédio às próprias feridas, mas só sabe causar ardência a ferida alheia. E tudo que é engolido e existe lá dentro eclodido quando pedem pra que saia em regurgito. Toda essa minha agonia que desconhecem está entalada na garganta. Uma espinha de peixe que atravessa a traquéia e a cada golfada de ar se move e me perfura. A cada uma dessas “palavras bonitas, meu amor, você não as conhece?” parece se amolar. E vai ficar aí, a espinha. Vai agoniar e eu vou morrer aos poucos a cada um que me deixa – que se torna meu pedaço e se cansa. Autotomia agressiva, de repente. Autotomia do qual minha pele nunca se regenera, mas nunca me revela a nudez completa porque nos momentos em que me permito ser o que exigem, a liberdade me espeta. E eu acuado. Eu quebrado. Eu que permaneço com uma espinha na garganta. Desconheço-me e deixo. Minha própria verdade me incomoda de repente. E continuo ininterrupto. Morrendo a cada parte com um sorriso displicente: porque cada um que chega também vai, isso eu sei. Porque cada um que chega me exige – ora ou outra, vez em vez. E cada um que chega também vai, isso eu sei.
                 

28/08/2011

De quando em quando (de vez em vez)


...Medo eu tenho até de que as palavras se esgotem, senão eu seria resumido ao quê? Folha branca, linhas retas, uma felicidade miúda presa entre os dentes? Sem forma, sem cor. Mas você me diria calmamente que não é de todo mau: palavras acabam, cria outras. E a noite que me abarca lá fora, além de tudo, vai estar sempre aguardando (com mais catástrofes do que amantes, entretanto). E eu até entendo que já não me esperem mais: nem na lista de presença eu sou o mais constante. Alimentei ausências e domestiquei a dor pra levantar dos destroços com a tranquila consciência de que voltaria para eles: Feito de pedras, feito de galhos. E eu até acho que não sou grande parte do problema (contenha o sorriso, abaixe o cigarro). Se tudo é consequência eu também sou. Com uma dose de inconsequência, sim, que me faz reviver momentos vis e pertencer a eles. Eu tenho que voltar é para o mundo: Abrir os olhos – cansados, pesados, embaçados – e pertencer ao mundo em todas essas suas ruas, avenidas, bares e vielas, em todas as suas dores que não deixam de ser minhas. O que há de se fazer? Eu, nos meus pequenos momentos de passos largos e reflexo na vidraçaria, com aroma de manhã lavada, sou que nem Aracne. Enfrento minha tragédia, petulante, tecendo versos no peito: mas no fim sou castigado e sei disso. De quando em quando, eu tenho a ousadia: De enfrentar cada minuto, cada ano e cada dia. Cada segundo e mês, de vez em vez. 

18/08/2011

Corra, garota


Corra, garota – eu digo
Só não quero que deixe essa tristeza quebradiça
Sempre em tons de cinza
Invadir-lhe o rosto
Quando eu falar que a vida não tem  essas cores
Que você pensa.

Corra, garota – corra da vida
Porque ela é sempre assim:
Um sopro quente que atravessa a garganta
E te enche com as veias pulsantes da existência
Mas nunca, meu amor, tem gosto agradável.

E eu digo corra – corra antes que a vida lhe alcance
Porque os braços dela sempre foram muito longos
Como seus pequenos momentos tão alvos, tão teus, tão leves que são
Sempre pareceram muito sinceros
E não tão efêmeros quanto são
Assim como as palavras eufemísticas 
Quase convincentes
Sempre pareceram - quase - cheias de razão.

Mas eu digo corra, garota
E você diz que “sem problemas”
Diz que sabe que a vida não é tão boa
Aprendeu com os livros
Que ela sempre tem um pedaço do amargo
E uma dose da ilusão.
Diz ainda que prefere esses anjos de pedra
Com as mãos unidas sob o sol
E essa areia fofa
Tão boa para deitar
Com a morte sob o chão.

Mas olha, garota, tem cuidado
Esses corvos que pousam nas lápides
Não recitam poemas para ti
Nem admiram o teu medo da vida
Eles só esperam que tua pele empalideça
Que teu corpo padeça
Que tua carne apodreça.

Não fique tão triste
Se eu disser que a morte também nunca foi bonita.
Assim como a vida
Ela esconde sua verdade em poesia
Ah, sim!
E você diz que é indelicado falar isso
Porque vida são essas avenidas vazias com detalhes bonitos em um dia de Agosto
É um rumo imprevisível -  lar de sonhos, lar de monstros
(sonhos são é convidados com data de partida)
É uma explosão, sim
Uma implosão, quer dizer
Que te tira o fôlego
Que te engasga
 Te tortura
Mas nunca, por Deus, te finaliza.

E por que o faria, afinal?
Vê?
Morte sempre foi placidez desejada
Lençol de indulgência
Doce, recheio com gosto de nostalgia
O momento final, a utopia

Por que julgar os corvos, meu amor? Ela pergunta
Se aí fora, na vida, todo mundo quer te devorar também.
(e não precisa nem morrer, viu? não precisa nem apodrecer!)

Para, garota
Para com essas verdades
Que nunca foram tão comprovadas
Para com essas verdades literárias
Que nunca foram assim tão sólidas, vê?

O fato é que vida e morte
São telas em branco
Que você
A artista
Pinta
Vive pintando
Pinceladas graves, coloridas, com cores que te pertencem
Mas você insiste dizer que pertencem a vida, pertencem a morte
Essas cores que você cria.

Ah, meu amor
Corra
Mas jure que quando enxergar tudo isso com mais sinceridade
Não vai ficar tão triste
Vendo  que vida e morte
São, tão simplesmente, teus sonhos mais profundos

Não fique cabisbaixa
Depois de provar uma dose de vida
Uma dose de morte
E não achar nenhuma das duas assim tão libertadoras

Mas enquanto isso, garota
Corra
Corra, mesmo
Corra, garota.
Porque todos esses teus rumos
Assim tão labirínticos
São só cheios de abismos
De extremos
E de destinos
Que te levam ao mesmo caminho.