...Medo eu tenho até de que as palavras se esgotem, senão eu seria resumido ao quê? Folha branca, linhas retas, uma felicidade miúda presa entre os dentes? Sem forma, sem cor. Mas você me diria calmamente que não é de todo mau: palavras acabam, cria outras. E a noite que me abarca lá fora, além de tudo, vai estar sempre aguardando (com mais catástrofes do que amantes, entretanto). E eu até entendo que já não me esperem mais: nem na lista de presença eu sou o mais constante. Alimentei ausências e domestiquei a dor pra levantar dos destroços com a tranquila consciência de que voltaria para eles: Feito de pedras, feito de galhos. E eu até acho que não sou grande parte do problema (contenha o sorriso, abaixe o cigarro). Se tudo é consequência eu também sou. Com uma dose de inconsequência, sim, que me faz reviver momentos vis e pertencer a eles. Eu tenho que voltar é para o mundo: Abrir os olhos – cansados, pesados, embaçados – e pertencer ao mundo em todas essas suas ruas, avenidas, bares e vielas, em todas as suas dores que não deixam de ser minhas. O que há de se fazer? Eu, nos meus pequenos momentos de passos largos e reflexo na vidraçaria, com aroma de manhã lavada, sou que nem Aracne. Enfrento minha tragédia, petulante, tecendo versos no peito: mas no fim sou castigado e sei disso. De quando em quando, eu tenho a ousadia: De enfrentar cada minuto, cada ano e cada dia. Cada segundo e mês, de vez em vez.
28/08/2011
18/08/2011
Corra, garota
Corra, garota – eu digo
Só não quero que deixe essa tristeza quebradiça
Sempre em tons de cinza
Invadir-lhe o rosto
Quando eu falar que a vida não tem essas cores
Que você pensa.
Corra, garota – corra da vida
Porque ela é sempre assim:
Um sopro quente que atravessa a garganta
E te enche com as veias pulsantes da existência
Mas nunca, meu amor, tem gosto agradável.
E eu digo corra – corra antes que a vida lhe alcance
Porque os braços dela sempre foram muito longos
Como seus pequenos momentos tão alvos, tão teus, tão leves que são
Sempre pareceram muito sinceros
E não tão efêmeros quanto são
Assim como as palavras eufemísticas
Quase convincentes
Sempre pareceram - quase - cheias de razão.
Mas eu digo corra, garota
E você diz que “sem problemas”
Diz que sabe que a vida não é tão boa
Aprendeu com os livros
Que ela sempre tem um pedaço do amargo
E uma dose da ilusão.
Diz ainda que prefere esses anjos de pedra
Com as mãos unidas sob o sol
E essa areia fofa
Tão boa para deitar
Com a morte sob o chão.
Mas olha, garota, tem cuidado
Esses corvos que pousam nas lápides
Não recitam poemas para ti
Nem admiram o teu medo da vida
Eles só esperam que tua pele empalideça
Que teu corpo padeça
Que tua carne apodreça.
Não fique tão triste
Se eu disser que a morte também nunca foi bonita.
Assim como a vida
Ela esconde sua verdade em poesia
Ah, sim!
E você diz que é indelicado falar isso
Porque vida são essas avenidas vazias com detalhes bonitos em um dia de Agosto
É um rumo imprevisível - lar de sonhos, lar de monstros
(sonhos são é convidados com data de partida)
É uma explosão, sim
Uma implosão, quer dizer
Que te tira o fôlego
Que te engasga
Te tortura
Mas nunca, por Deus, te finaliza.
E por que o faria, afinal?
Vê?
Morte sempre foi placidez desejada
Lençol de indulgência
Doce, recheio com gosto de nostalgia
O momento final, a utopia
Por que julgar os corvos, meu amor? Ela pergunta
Se aí fora, na vida, todo mundo quer te devorar também.
(e não precisa nem morrer, viu? não precisa nem apodrecer!)
Para, garota
Para com essas verdades
Que nunca foram tão comprovadas
Para com essas verdades literárias
Que nunca foram assim tão sólidas, vê?
O fato é que vida e morte
São telas em branco
Que você
A artista
Pinta
Vive pintando
Pinceladas graves, coloridas, com cores que te pertencem
Mas você insiste dizer que pertencem a vida, pertencem a morte
Essas cores que você cria.
Ah, meu amor
Corra
Mas jure que quando enxergar tudo isso com mais sinceridade
Não vai ficar tão triste
Vendo que vida e morte
São, tão simplesmente, teus sonhos mais profundos
Não fique cabisbaixa
Depois de provar uma dose de vida
Uma dose de morte
E não achar nenhuma das duas assim tão libertadoras
Mas enquanto isso, garota
Corra
Corra, mesmo
Corra, garota.
Porque todos esses teus rumos
Assim tão labirínticos
São só cheios de abismosDe extremos
E de destinos
Que te levam ao mesmo caminho.
15/08/2011
Silêncio de ferrugem
São as coisas pequenas da vida, seus pormenores perdidos, sem importância, e as coisas não ditas que a formam. São essas pequenas agonias, deitadas em uma angústia intrínseca, que formam o silêncio. inteligível e profundo, escondido na sua vastidão delicada por trás dos lábios fechados, mordidos, com carne viva e sangue seco; essa pequena rachadura, ferida aberta, assim entre o canto e o meio da boca rasgada, da onde sai o sussurro indelicado que narra como história de ninar tudo aquilo que lhe assombra. "Mas é que" começa a falar e parece não hesitar, com uma estranha tranquilidade de quem já conhece a própria destruição e de que, sendo vítima das próprias sentenças, é a única que pode traçar um caminho de compasso até o abismo – "mas é que essas coisas só se tornam pesadas depois que os olhos se fecham". E é – só vem o silêncio, em todo seu egoísmo, quando se calam os ouvidos. Vem como veneno, como coisa que sanada nunca vai ser, só procrastinada pelas outras vozes (porque a sua continua calada). E é nisso que fica, espreitando sob a sombra dos próprios fantasmas, de demônios que se deitam e mordem e arranham e agridem lá por dentro, que se contorcem com seus dedos de arame farpado com as pontas para fora, perfurando os pulmões (e cada golfada de ar é tão pesada que lhe afoga - tão pesada!), perfurando o peito já cheio de fendas e cortes que ainda sangram. E ela não os deixa ir embora porque, no fundo, tem medo de melhorar (e se perder no meio termo), tem medo de melhorar como quem prefere ficar presa e amarrada e deitada à ponta do furacão. Como quem tem a consciência calada de que, se partir ou ficar, tudo volta de novo.
(é que nada parte para sempre)
(nada sara inteiramente)
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