Olá.
No fundo do meu peito, a espera eterna pela quietação. De ouvidos livres no silêncio, a espera tola pela placidez que não consegue brotar de meu peito como os ramos da tua voz que me escorrega, girando e espiralando por dentro. É que tanto me consome essa angústia que não há espaço: nos ossos, no corpo, nas veias, pesando em cada pulmão meu. Essa ausência que se perde entre muitas, vívida e gelatinosa, é a que mais me ocupa, a que mais existe como um buraco na areia – tal qual eu continuo, ainda, jogando terra para se tampar e virar parte de tudo até que não exista mais, virando sal e terra, parte do mar, parte dessa poeira que sem que percebamos se incruste a pele dos outros e vire doença deles e não minha. Sina desfragmentada em cada corpo que não é meu. Assim até que vire sombra e sobra e pertença àquele lugar onde todas as coisas não ditas descansam, onde cada olhar que não se cruza na multidão existe com mais tranqüilidade, com mais quietação.
Q-u-i-e-t-a-ç-ã-o. Parece ser uma ânsia soletrada donde cada letra tem um peso, donde cada letra não se une para solidificar o desejo. E é tudo culpa sua – tudo, tudo, tudo. Culpa desses olhos de incógnita que sempre despejavam as próprias verdades. Assim mesmo, em contradição (mas eu devo dizer que sempre acho essas pessoas com a voz tão alta e livre ao mundo são as que mais nutrem de segredos). E de forma quase inconveniente você ia se transbordando da própria superfície. T-r-a-n-s-b-o-r-d-a-n-d-o. Só assim você sabia: vazar por todos os poros e cortes e brechas abertas na pele da forma mais tortuosa possível. Você que não conseguia ser melodia propriamente (mas melodias são delicadas demais, você diria, são tão antiquadas, também!). Só sabia se traduzir como um som surdo, alto até demais, abafando-me os ouvidos, rompendo-me os tímpanos até quando as palavras saiam delicadas e comedidas. Era como se gritasse e continuasse a gritar. Como se fosse tanto excesso que se deixasse claro até nas mais frias sentenças que pareciam me quebrar e quebrar e quebrar e romper cada corda vocal minha. Minha voz se ensurdecia enquanto eu continuava a te ouvir.
Transpirar, pra ti, talvez ainda seja “pouco demais”: Sair em gotas, em doses pequenas. Tudo isso é tão pouco, não é? Transbordar, não, é como explodir: Ser chafariz de vida, represa que leva a tudo que se posta em meio-caminho e depois se recompor até sobrar só poças cansadas de água fria. Essa agonia minha vem do paladar, vem da gengiva, das minhas papilas gustativas. Você sabe o porquê, não é? Porque ainda tenho o teu gosto na minha boca. E que tolo sou, sim? E que tolo sou! Esse gosto amargo que só já perto da garganta fica doce. Então, eu diria, é como se teu sabor fosse agridoce. E não como gosto ruim, mas como gosto forte que não sai: Daquilo que se coloca na boca e se cospe – mas o sabor continua, o gosto perdura. Esse gosto teu não pode ser aliviado porque, eu presumo, é o gosto que eu tenho também. Esse é meu sabor: o mesmo que o teu. O mesmo que se alonga da ponta da língua a garganta e que continua na saliva. Que não pode ser escovado, cuspido ou engolido. Um gosto irremediável. Eu diria que é gosto de veneno. É o teu veneno que ainda faz efeito em mim, vindo direto da boca e escalando o organismo, matando cada entranha e percorrendo cada osso, cada ponte que liga cada pedaço de existência. São esses pedaços teus, eu sei, que ainda ficaram aqui dentro. Teus resquícios jogados por cada parte de mim.
E eu só posso os sufocar se sufocar alguma parte minha junto – se prender o fôlego e me assassinar um pouco também. Só assim, só assim. É porque cada parte tua é grudada em mim, é costurada. Como sementes de ervas daninhas que me desceram a garganta e nasceram lá dentro, criando o próprio lar, supurando o próprio veneno. Infinitamente tentando te transpirar e transbordar e me perdendo no processo como se tu só te dissipasses se meu corpo fosse drenado, se cada gota de vida minha pingasse no chão, em toda sua vermelhidão. E eu tenho a plena certeza de que é assim mesmo: Eu não reclamo, eu não entristeço, não. Eu sobrevivo com cada pedaço teu e me agonia só a distância, como se não fosse, afinal, suficiente te ter dentro de mim.
Eu sei que, no fundo, você também ainda me tem aí dentro – ainda resguarda algum fôlego meu. Alguma gota do meu sangue ou molécula que pode ter te penetrado a carne. Assim, duas vidas homogêneas coexistindo dentro da outra, através de um espelho, de um reflexo, do cristalino de um riacho quando se toca a água e as mãos se encontram, sabe? Como eu, que ainda ouço os teus gritos dentro de mim, se mostrando insistentes nos momentos mais silenciosos (quase pedindo para que eu não esqueça que aqui, aqui dentro, você ainda existe e que precisa de cuidado). Eu que ainda escuto teus passos ou a tua risada derretida, que tem gosto de baunilha, ressoando no sótão ou na escadaria. Cada sombra tua que sobrou e tão cedo não será extinta. É que passamos pelos mesmos furacões juntos. Quando me estendia a mão, os dedos quentes e me puxava para aquele mar aberto que eu desconhecia, era dentro de um redemoinho. Quando me levava para algum lugar, era para a tempestade. E deve ter sido no meio de tanta desordem que, alguma hora dessas, acabamos por cair no chão e de mãos dadas nos olhamos. Nossos olhos saltando para fora das órbitas, cada veia vermelha de carne viva ilustrando o chão enquanto se uniam tépidos, e como se já não agüentassem, explodissem e virassem matéria bruta. Duas cores que, unidas, formavam um sabor (o agridoce, é claro).
E eu que até sinto falta dessas insanidades das quais eu, com orgulho bruto que antes era inexistente, enfrentava. Dando-te a mão e sentindo o cálido de teus dedos, que aliás, ainda está marcado nas minhas falanges, enquanto me guiava a cada canto sombrio de teu próprio universo. A conseqüência é que um pouquinho de tudo isso eu tive que engolir: mais do que eu esperava, certamente. E nem cuspi e nem vomitei, como uma criança obediente ingerindo um remédio ruim e semicerrando os lábios molhados. Eu acho que me embebi de ti, isso sim. O que sobrou agora é que eu não sei, meu amor.
Sei que, matematicamente falando, somos como uma equação com um erro no meio, algum equívoco desproposital. E lembra que os professores sempre dizem: não pode haver erro se não o resultado é catastrófico. Então, é, talvez sejamos o resultado: Números cheios de virgulas e pontos que nunca conseguem ser inteiros, que nunca conseguem ser sólidos e satisfeitos. Que continuam a procura de algo no meio de tudo isso. Somos uma equação – com um erro, certamente. Somos o começo certo e aquele erro indiscreto, mas acima de tudo, somos o resultado: Catastrófico e infinito. E mesmo assim, depois de tanto, dessas tempestades que enfrentamos e abismos que tropeçamos, eu me afogando em ti e você transbordando em mim, a minha agonia não é nem os teus pedaços e os teus resquícios e a tua voz assombrosa que me persegue. A minha agonia, meu amor, você sabe qual é. Como conseguimos morrer assim? Há ainda quem diga que a morte natural é a melhor causa de morte. De qualquer forma, eu ainda acho que temos um último resfolegar, sim?
Desculpe-me o exagero – você sabe que sempre fui assim. Com amor...
Ok, eu realmente não consigo escrever um comentário decente agora. Mas por enquanto só queria dizer que i'll cut your little heart out CAUSE YOU MADE ME CRY!
ResponderExcluirQue meus olhos marejados sejam comentário suficiente.
ResponderExcluirTive que voltar pra ler de novo e ficar sem palavras de novo porque esse texto é muito desses, minha gente... Já pode ser meu favorito?
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