09/11/2011

Rosa



Não peço muito. Não tanto que não possa responder, Rosa! Só me diga, com a tua mais bruta sinceridade, se há um modo certo de existir. Que não venha a ser tão pleno que de tão pleno é vazio e que não seja, também, assim tão cru que traga o desamor aos dias. Eu sei que, num mundo tão vasto, há questionamentos mais complexos do que esse - e que, mesmo ao seu modo, você saberia responder. Ah, Rosa, só não sabes mesmo responder as próprias questões (tão insolúveis quanto as do próprio universo) mas as minhas, as que mais me destroem, são para ti como enigmas fáceis. 

Às vezes suspeito que talvez, só talvez, eu devesse existir da forma que você existe (para ser mais prático): vendo mais sonho onde há vida; sonhando lugares, livros e pessoas; suspirando, sim, que vida é para ser sonhada. Que nós somos os solutos de uma existência heterogênea. 

Os teus dias compassados, demarcados nos calendários de lojas abertas na avenida, nas salas de paredes brancas ou em livrarias: Não há nada mais heterogêneo do que eles, senhorita! Tão intrínsecos. E tão ins(usten)táveis, sim. Mas já não sei como sonhar a vida sem tropeçar em uma ou outra questão que me acorde de supetão, como um incômodo despertador que toca, exatamente, às seis da manhã e diz que vida está ali para ser vivida. Mas, meu amor, eu sei que é assim: se os dias são mais oníricos ou mais reais, isso depende de mim.

Sabe que, do modo mais incômodo, a tua ausência se tornou algo parecido com fumaças e espelhos. E que, quase acidentalmente, não foi você que começou a sonhar a vida, Rosa, mas ela que começou a te sonhar. Como se parte da grandeza que te sustenta tivesse de ser onírica para que a tua existência pudesse ser inteira. É confuso, eu sei, mas sonhos costumam ser assim: E você, Rosa, é como um. É do teu feitio essa intensidade que o calendário não abarca e que o tempo não pode comedir. Talvez com os anos as tuas ferocidades se acalmem, mas duvido disso. Os meus dias precisam de algo novo, você diz, pois viraram matéria liquefeita. Os meus dias começaram a ser como sonhos, senhor, você continua, e começo a acreditar que vida tem de ser sonhada.

Mas ah, Rosa! Aí há um erro: Volto a repetir que em um sonho tudo está, de certo modo, suspenso. E que nós dois, eu e você, sonhando a vida, somos os solutos ao fundo, como se nosso peso houvesse nos afundado. Nós e a vida: água e óleo. E suspensa a vida está: aguardando com inquietação o dia em que nos juntaremos como dois iguais. O dia em que, quimicamente falando, seremos puramente homogêneos. 

Bem, não há muito o que dizer. Queria só que compreendesse, Rosa, quando digo que a vida é muito pequena para ti, que o tempo é como a areia que escorre rápida na ampulheta e que, um dia, quando a morte te abater o rosto, você ainda existirá a sua própria forma.

Ah, garota, você é grande demais até para ser humana: e não me leve a mal. Você é mais como uma sensação. Não das mais agradáveis, decerto. Mas são os piores sabores os que mais demarcam as papilas humanas; são as unhas mais afiadas que hoje formam as cicatrizes que nos protegem com seus velhos fantasmas. E você, Rosa, é uma sensação passageira, mas intensa; repentina, sim; destruidora como as ventanias de inverno. Deixa sempre esse vazio que tudo aquilo que exige muito espaço deixa, depois de partir. Sei que, quando todas as memórias vazarem de mim junto a sanidade rala, só uma sobrará e será como uma sensação: a imagem dos teus cabelos ruivos escorrendo como sangue quente pela pele pálida. Mas não se preocupe: de cabelos longos ou pretos, ruivos ou bagunçados, curtos ou castanhos, você continuaria como essa sensação um tanto curiosa. Algo meio empírico. Algo meio onírico.

Mas ainda te aguardo da mesma forma. Com a mímica, com o peso, com a voz. Com os sonhos. Tentando existir da forma mais conveniente, mas ainda sentindo a dor em todas as vertentes. É assim mesmo, eu sei, é um tanto necessário.

E talvez não haja forma certa de viver, afinal.

(Rosa, eu espero que ainda lembre de mim, depois de tudo - apesar do tempo, apesar do agora, apesar da ausência. O teu rosto onírico a minha existência guarda. A minha voz é muda, mas minh'alma é vasta.)

Um comentário:

  1. Rosa é linda. Como uma estação. Não das mais agradáveis, é claro.
    E uma entrevista exclusiva com o escritor: Quem inspirou esse texto? "Não sei. Muitas pessoas. As ausentes."

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