é assim, senhor, mas ninguém há de compreender
por trás do silêncio; dos olhos pequenos
brilhantes, infantes, sorridentes pupilas
só existem incansáveis gritos que me cortam
[agudos
como lâminas atravessando a seda da mais delicada
é assim, senhor, mas quem é que entende?
e, me diga, por que é que entenderiam?
cada um desses gritos clamando por fuga
me matam pouco a pouco, dia após dia
da funérea mortalha que cobre minh'alma
já não adianta clamar por justiça
a voz não chega à minha própria superfície
percorrendo a profundeza de dócil escuridão
padece sem força na garganta
espreita por trás dos molares
quem há de ouvir a súplica do silêncio contido e enxuto
senão a branca imensidão do papel surrado?
quem há de me olhar tempo o bastante para enxergar-me
pouco a pouco, gradual e todo errado?
28/01/2012
21/01/2012
Através da realidade
Já não se pode distinguir a tênue linha entre a melhoria e o agravamento. É verdade que, por muito tempo, consternei-me ao silêncio, criando a justa divisa entre eu e a vida. Se eu fosse uma cidadezinha, nesse tempo em branco em que vivi, não existiria no mapa. E, porém, é possível dizer que mesmo existindo pela metade, aprendi uma ou duas coisas sobre a vida – instantaneamente, comecei a enxergá-la como é. Como se antes fosse essa imagem distante, desfocada, e de repente, se tornasse mais nítida: traços surgindo onde antes não existiam e sombras se tornando mais escuras; poros e veias, como um rosto feio enxergado antes por olhos míopes agora sob a lente dos óculos.
Constantemente, eu tento me convencer de que isso é uma dádiva – porque é só assim que se sobrevive. Tentando se convencer de que sanidade e realidade caminham de mãos dadas como velhas amigas e que tem algum fator comum além de sonoridade. Eu digo, sussurro na leve brisa da vida, que tanta gente enlouquece por menos – então até que ponto eu estou são? Até que ponto a existência, as pessoas e até mesmo os detalhes, como as cores e contrastes, são vistos como são?
Eu não sei – a verdade é que a realidade nunca existe plenamente senão numa utopia, numa definição, numa página de dicionário ou numa poesia metrificada. Até que ponto otimismo ou pessimismo definem uma rota ou um caminho, pouco hei de saber. Eu sei, eu sei: talvez esteja pensando demais, consumindo tudo o que me cerca de pensamentos. Alguém deveria ter a decência de me dizer que não se disseca nada – mais uma vez, há de se descobrir sozinho esses detalhes – porque, quanto mais se questiona a natureza das coisas, mais há o inevitável risco de compreendê-la. Até que haja um golpe final, seja ele qual for, e você já não seja o mesmo: tudo te torna mais amargo.
Eu não sei, para ser bem franco. As coisas mudaram de um dia para o outro, de uma hora para a outra, de um minuto para o outro. Uma violenta ruptura, a quebra de uma parede que continha uma represa. O que sobra agora são só as poças de água parada e eu entre elas, afogado, afogando; De alguma forma, eu sinto que a minha própria vida foi roubada de mim, usurpada num suspiro, até só sobrar esses rumos caóticos, essas bifurcações, esses caminhos que nem sei porque segui.
Sinto que, de certa forma, a ignorância seria mais leve - a banalidade de uma vida sem tantas questões. Eu tento me convencer, porém, de que tudo é melhoria, e que há, sim, tais pequenos sacrifícios para se ser inteiro, tentando usurpar a esperança de onde já não existe mais. Mas até onde – diga-me – até onde vai a linha tênue entre o que é real e o que os olhos vêem?
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