Se me cego a cada vívido amor teu, é para tornar inata tua existência dentro de mim. Até que eu e o universo entremos novamente em comunhão e eu possa contemplá-lo como é e não como você me disse que era; até que eu possa sentir os gostos como são, não como você os provou; até que seja verão e cada folha seca deixada nos corredores, caindo das tuas roupas, desmanchem-se em tons de bronze que me lembra tua pele: um tecido translúcido e rasgado.
Mas até onde suporto exorcizar-te de mim? Extraviar-te de meus dias para os dias de outrem, soprar-te para um canto escuro e frio da cozinha enquanto beberico o chá aromático e até mesmo o aroma dele não tenha sabor nenhum? A mesa sempre estará pronta para dois, o pano antigo sempre terá o curioso cheiro do teu perfume diluído em gotículas de suor. Diga-me: até onde posso me ser, completamente, se até a paz é desconcertada?
Vida e morte sempre me pareceram tão certas, mas agora é como se a linha tenaz que as mantivessem fosse lentamente apagada, deixando pequenas brechas que as misturam como sal e água.
Até onde se assassina a vontade de viver e até onde o que está morto insiste em existir? Até onde nossos dias foram e até onde passaram a ser uma tentativa? Até onde terminamos e começamos dentro de nós mesmos?
Até onde se assassina a vontade de viver e até onde o que está morto insiste em existir? Até onde nossos dias foram e até onde passaram a ser uma tentativa? Até onde terminamos e começamos dentro de nós mesmos?
Não me acorde com o toque, mas com a voz; não com a distante presença que se confunde a uma lembrança real demais, mas com a solidez. É que ainda me sobram medos e até mesmo a natureza deles já não sei definir: até que ponto são meus e até que ponto foram teus? É assim mesmo que a alma envelhece, alimentando-se de receios que não nos pertencem, mas surgem como feridas que nunca cicatrizaram? Ainda temo a escuridão e as terríveis formas que se assumem diante dos meus olhos – rostos que se dissipam à luz do dia. Ouço passos na escada, sinto a cabeça sobre meus ombros, abro os olhos e contemplo uma antiga solidão.
Minha vida disfarça esse indizível vazio com antigas ausências, preenche conversas noturnas com vozes que já se foram e permanecem a ecoar. Até mesmo a saudade se torna um sentimento vil, enganosamente tenaz.
Digo isso porque no momento em que você se tornar real, atravessando as paredes ou me surpreendendo por baixo dos lençóis, a saudade será mais uma fuga do que nós nos tornamos. Um desespero sedento para fazer-te distante e voltar a relembrar de épocas que já foram boas. Como se, em outros tempos, houvéssemos sido genuínos – e o que veio depois foi só um grande esforço para a sobrevivência.
Hoje, sei mais dos meus fantasmas. Dos barulhos que me silenciam, dos antigos pedaços que suspiro, da fina crosta de poeira que me cobre, da luz que atravessa o vidro diáfano e revela os móveis velhos do quarto contíguo.
Todo rosto é uma máscara, um vazio. E mesmo você será senão parte da matéria viscosa que escorre entre meus dias. Um pedaço de ausência que respiro. Adormecerei qualquer dia desses sem lembrar-me do teu nome ou das tuas feições. Irei te sentir do outro lado da parede, bebericando almas, e dizer que é só o vento ou qualquer um desses fantasmas que se lamuriam de existências cruelmente interrompidas.
Nunca poderei dizer, porém, que o leve baque na cama ou o travesseiro amassado são senão uma impressão passageira; se aquela voz suave e indefinível foi senão parte de um sonho que se interpôs na realidade.
O outono algum dia vai passar e até mesmo as coisas esfumaçadas que existem entre nós - fazendo-nos existir em um ciclo vicioso sem respostas – tomarão alguma forma.
Todo rosto é uma máscara, um vazio. E mesmo você será senão parte da matéria viscosa que escorre entre meus dias. Um pedaço de ausência que respiro. Adormecerei qualquer dia desses sem lembrar-me do teu nome ou das tuas feições. Irei te sentir do outro lado da parede, bebericando almas, e dizer que é só o vento ou qualquer um desses fantasmas que se lamuriam de existências cruelmente interrompidas.
Nunca poderei dizer, porém, que o leve baque na cama ou o travesseiro amassado são senão uma impressão passageira; se aquela voz suave e indefinível foi senão parte de um sonho que se interpôs na realidade.
O outono algum dia vai passar e até mesmo as coisas esfumaçadas que existem entre nós - fazendo-nos existir em um ciclo vicioso sem respostas – tomarão alguma forma.

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