31/08/2012

Mamãe

A carcaça escorre da banheira nesse domingo empoeirado
Dona vizinha há de perguntar 
que cheiro é esse 
A uma hora dessas, meu senhor?
Minha língua lambe o ventre intumescido 
Em busca do ser primário
E já não há mais nem pranto
Nem gozo
Nem canto.
Mamãe, não se engane
Meu choro é por dores mais antigas
Se te agarro assim tão fortemente é porque sei:
Cada parte tua há de se desmanchar 
Entre os meus braços
[Pele descolada 
lábios roxos 
dedos tortos
narinas tapadas 
algodão 
flores de velório
sobre os seios virgens 
braços murchos
cruzados em crença divinal]
É domingo, o sol não desce
E as cores de 1996 
Voltam por trás dos olhos fechados
Edifícios tortos, árvores descascadas, outono inexistente
Em nossa cidade de verão eternizado.
Caminhamos entre ruas tão antigas 
E de mãos dadas
Nesse sonho tão nosso 
Que já nem se sabe de quem é.
No fim, só hei de sentir o vazio entre os dedos
E teu corpo vai virar folha seca
Invólucro de veias inchadas na banheira
Despejou o vidro todo, mulher?
O vidro todo, sim, senhor!
E junto dele o sangue, nosso sangue...
Só pra que não haja mais saída.
Por que te afliges, mulher?
E, quanto a isso, eu sei que não há resposta
Hei de encarar o silêncio como um velho amigo
Pequena recordação do que nos tornamos.
Eu é que balanço esse berço vazio
Caminho pelos cômodos silenciosos da casa
E digo que, apesar de tudo, sempre foi assim.
Nossa morte viria cedo ou tarde
E, entre tantas fatalidades
Sobrou nem espaço para o depois.
Agora arrasto esse corpo murcho 
Para o canto mais quente da sala
Dona vizinha há de vir e perguntar:
e com essa moça, o que aconteceu
por onde ela esteve
por todo esse tempo, meu senhor?

25/08/2012

Emergi das sombras


Te atiço leve: 
O que é de nós se toda palavra cava crateras
E mesmo o silêncio 
Evoca surdas-mudas vozes ancestrais?
O que é desse meu eu fugaz e insatisfeito
Rompido e incandescente
Sob fuga divinal?  
O pé sangrento se arrasta na areia
Correntes fechadas nos pulsos
Sangram os pecados 
De séculos mais doces.
A minha palavra mais arredia ninguém conhece
E do alto da insanidade só hei de dizer:
Minha alma é suja. 



11/08/2012

Entre o sacro e o profano


A corda bamba 
rompe sobre o abismo
E a loucura dos santos 
consome a modorra
De nosso peito mofado. 


08/08/2012

A via da morte

I

Quem é ela 
Que me escala o corpo 
Com unhas afiadas
E me escancara o peito 
Só para lamber 
A veia viçosa
Desse coração delgado?


II

A tua carcaça continua amarrada ao meu tornozelo 
(Nem o vento do meio-dia espanta o cheiro de morte desse lugar)




III

                                     É esse o nosso destino inevitável?
Osso por osso
Pele por pele
A carne alojada 
Entre os dentes da fera.
Verme que percorre 
A via frágil do corpo
Quando o corpo é pouco menos
Que pele por pele
Osso por osso