26/09/2012

Maria (e-outras-tantas-dores)



Maria tem nos olhos essa ausência que ninguém percebe. Só se torna real quando refletida no vazio. O espelho está na ponta da cabeceira e uma brisa qualquer pode derrubá-lo - em breve, será pedaços de antigos séculos eternizados no rio fervente da memória. Há nos gestos dela uma tênue agressividade. Por trás do riso nervoso, a denúncia de que vive à beira da eclosão - pode trincar a qualquer momento, mas continua escapando dos braços mundanos e esperando pela queda livre, conformada. Não sabe que sempre continuará com um pé à beira do precipício, mas nunca haverá a queda. O que há por baixo dos pés é solo firme, só não pode senti-lo. Maria, tão humana e receosa, teme encarar a Vida de frente - dama cruel de olhos dionisíacos e mãos sorrateiras que emergem da penumbra para arrastá-la ao mistério de se ser.