ouço o arrulho de um pássaro
leves asas ribombando
no vazio dos meus ossos.
a besta
cimentada sob o tórax
deu agora de fremir
e inquietar-se
dando-me o fastio
e a desgraça
e a desgraça
a vertigem e a ansiedade
que me afunda nos lençóis
ao dobrar do meio-dia.
hei de olhar os séculos
assistindo ao lento pendular
das horas
e bradar ardentemente
enfastiado:
que enfado!
o bicho, agora, deu de ser feroz
de ser bravio
de colocar-me em desafio
com meu próprio caminhar.
com seu bico polido
destituindo
destituindo
o que há de virtude
e o que há de
vício
descansando a cabeça macia
no oco flácido do pulmão.
ah, que peso!
em cada fôlego engolfo
engasgo
cada coragem que me chega
eu cuspo:
já não me cabe a vida inteira.
os anos correm
só na noite o arrulho silencia
meu corpo pende em torpor
meu corpo pende em torpor
pra não acordar a pestilência.
um dia adejarei
de uma sacada qualquer
de uma sacada qualquer
caindo pesado
no passeio público:
no passeio público:
o peito se abrindo inteiro
os ossos me atravessando
o sangue tingindo em rubro.
o arrulho, então, há de
cessar
o arrulho, então, há de
cessar
mas não agora
digo
brando e silencioso
pois teimoso
afago e consumo
digo
brando e silencioso
pois teimoso
afago e consumo
tudo o que não me cabe.

