30/05/2014

Dá-me


dá-me de novo teus caprichos
toques fugidios
beijos lascivos
um olhar verde enviesado 
no passo tonto
no passo lasso
dá-me de novo teu desejo
carne conjunta
rubros joelhos
dá-me de novo teus castigos
cingir ardente
fustigo vivo
dá-me as tuas maldições
os impropérios
imperfeições
deixe-me ser
a fresta aberta 
na tua macicez
corpo insidioso 
interposto
ao teu e ao dele. 
deixe-me
ser a musa 
rosto evanescente
de teus rascunhos sem face.
te mostrarei o que há além
da ternura e dissidência 
das canduras da inocência
o que há além 
de nós dois.
dá-me de novo tua paixão
para que eu possa rejeitá-la 
escarnecê-la em derrocada 
para a sombra do desejo

através da fronteira
de nossa carne
hei de pender no vão
entre corpos que se repelem
e alvas formas
sem fricção. 
devolvo-te meus sorrisos
meus olhares
escudo-te 
em meus silêncios.
eu estou
para muito além 
do que não se vê
um simulacro
atado na própria sina
de não se ser.