Encontrei Rosa na estação
hoje. Mas, enquanto escrevo, parece-me que o tão ligeiro acontecimento se deu em algum sonho que tive na noite passada. É capricho de Rosa
deixar em mim a indelével impressão de que
nada que a circunda é real, como se trouxesse consigo uma redoma impenetrável
de incerteza. Por isso escrevo. Para que as linhas sejam a maior testemunha de
que a vi, sim, de que a vivi; de que aquele instante na estação, poucos minutos
antes do meu trem partir, existiu. A conversa foi extremamente casual, como se
espera dos indivíduos que agora estancaram num estranho meio-termo entre conhecidos e
semi-conhecidos. Falamos algo sobre filhos (não os tivemos) e viagens (ela
viajou bastante; encontro países e estados entremeados em seu indistinguível sotaque). O que entre nós existe de mais relevante e suntuoso, porém, só se
fez presente nas coisas não-ditas, no intervalo silencioso que separa uma palavra da outra,
nos segundos que existem antes da ponderação de uma resposta. Rosa
abandonou o antigo ruivo e decidiu-se por um loiro-pardal. Serve-a bem. Parece
agora ter adotado um gosto por roupas vermelhas e floridas. Trocou o perfume
adocicado por um mais forte, masculino, quase cítrico. Está um tanto
quanto cansada, eu diria, mas ainda detentora do mesmo charme de pássaro.
Ficamos ali e, intimamente, sem que Rosa sequer imaginasse, perguntei-me como aquele
instante pareceria em minha memória daqui a algum tempo, pois sempre tive
dificuldade em viver o agora. Tudo em mim só é sedimentado no depois; a fúria da vida me entorpece. Talvez eu me lembre
desse minuto na estação com pavor, indiferença ou ardor. Talvez eu o some a
todos os instantes em que estivemos juntos e monte uma única e incerta circunstância. Bem, ando notando que o tempo corre em círculos. Há nisso algo de muito
reconfortante. Se os dias fossem lineares, que fardo seria viver hora após hora! Sendo assim, sei que Rosa e eu nos encontraremos novamente
em outras estações ou avenidas e travaremos a mesma conversa cheia de
circunlóquios que hoje travamos. Desde a primeira vez em que a vi naquela
livraria ou atravessando a Catedral, eu soube que estava a vendo não só ali, mas também
em muitos outros séculos e tempos imemoriais que coexistiam harmoniosamente. É verdade que pouco a pouco perderemos o senso de quem nós
somos, esqueceremos de nossos rostos e da silhueta de nossos corpos. Mas sempre
vai existir algo de maior para me conduzir através, como o fogo já pálido de uma lamparina. Ah!
Rosa falou algo sobre ter sido um prazer me ver. Não perguntei para onde ela ia. Como sempre, não marcamos outro encontro. Parece até descuido, mas que maldições nos enlaçariam se quebrássemos a inefável mágica da casualidade?
