22/03/2014

Fragmento perdido sobre Rosa III (ou A casualidade dos corpos)



Encontrei Rosa na estação hoje. Mas, enquanto escrevo, parece-me que o tão ligeiro acontecimento se deu em algum sonho que tive na noite passada. É capricho de Rosa deixar em mim a indelével impressão de que nada que a circunda é real, como se trouxesse consigo uma redoma impenetrável de incerteza. Por isso escrevo. Para que as linhas sejam a maior testemunha de que a vi, sim, de que a vivi; de que aquele instante na estação, poucos minutos antes do meu trem partir, existiu. A conversa foi extremamente casual, como se espera dos indivíduos que agora estancaram num estranho meio-termo entre conhecidos e semi-conhecidos. Falamos algo sobre filhos (não os tivemos) e viagens (ela viajou bastante; encontro países e estados entremeados em seu indistinguível sotaque). O que entre nós existe de mais relevante e suntuoso, porém, só se fez presente nas coisas não-ditas, no intervalo silencioso que separa uma palavra da outra, nos segundos que existem antes da ponderação de uma resposta. Rosa abandonou o antigo ruivo e decidiu-se por um loiro-pardal. Serve-a bem. Parece agora ter adotado um gosto por roupas vermelhas e floridas. Trocou o perfume adocicado por um mais forte, masculino, quase cítrico. Está um tanto quanto cansada, eu diria, mas ainda detentora do mesmo charme de pássaro. Ficamos ali e, intimamente, sem que Rosa sequer imaginasse,  perguntei-me como aquele instante pareceria em minha memória daqui a algum tempo, pois sempre tive dificuldade em viver o agora. Tudo em mim só é sedimentado no depois; a fúria da vida me entorpece. Talvez eu me lembre desse minuto na estação com pavor, indiferença ou ardor. Talvez eu o some a todos os instantes em que estivemos juntos e monte uma única e incerta circunstância. Bem, ando notando que o tempo corre em círculos. Há nisso algo de muito reconfortante. Se os dias fossem lineares, que fardo seria viver hora após hora! Sendo assim, sei que Rosa e eu nos encontraremos novamente em outras estações ou avenidas e travaremos a mesma conversa cheia de circunlóquios que hoje travamos. Desde a primeira vez em que a vi naquela livraria ou atravessando a Catedral, eu soube que estava a vendo não só ali, mas também em muitos outros séculos e tempos imemoriais que coexistiam harmoniosamente. É verdade que pouco a pouco perderemos o senso de quem nós somos, esqueceremos de nossos rostos e da silhueta de nossos corpos. Mas sempre vai existir algo de maior para me conduzir através, como o fogo já pálido de uma lamparina. Ah! Rosa falou algo sobre ter sido um prazer me ver. Não perguntei para onde ela ia. Como sempre, não marcamos outro encontro. Parece até descuido, mas que maldições nos enlaçariam se quebrássemos a inefável mágica da casualidade? 

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