22/06/2016

dimanche

a morte dedilha
nossas vértebras
e se esgueira indiferente
porta adentro
como se lá fora 
não rufassem as árvores
e passassem os ônibus
e cruzazem-se as pernas
e não fosse
hoje
o domingo
mais bonito do mês:
olhe este céu azul-piscina
ofendendo nosso olhar
eles dizem;
a morte
enfastiada
sob a seca palavra
objetiva e quadrada
resguardada no poema pensado
e repensado 
diversas vezes
mas nunca escrito;
morte colhida
como orquídea 
como este verso
que não sabe de onde veio
ou pr'onde vai; 
morte tolhida
sem anúncio
que entrou sem avisar
saltando a veneziana
e se escondendo sob a mesa
correndo fugaz, tão veloz 
que ninguém soube
o que havia sido
pássaro ou avião
morte entre nossos atos
na simplicidade da nota musical

um minuto 
desde que a morte
pousou em nossos ombros
e alçou o voo
destrambelhado 
farfalhando perolada
até o canto da parede
e por lá mesmo ficando
(desde então
não se fala mais nisso).

17/06/2016

lembrete

[é tudo parte de uma ilusão maior
engrenagens secretas sob o fôlego
e o dia lá fora está bonito demais 
para que eu o gaste 
com um poema de amor]