a morte dedilha
nossas vértebras
e se esgueira indiferente
porta adentro
como se lá fora
não rufassem as árvores
e passassem os ônibus
e cruzazem-se as pernas
e não fosse
hoje
o domingo
mais bonito do mês:
olhe este céu azul-piscina
ofendendo nosso olhar
eles dizem;
a morte
enfastiada
sob a seca palavra
objetiva e quadrada
resguardada no poema pensado
e repensado
diversas vezes
mas nunca escrito;
morte colhida
como orquídea
como este verso
que não sabe de onde veio
ou pr'onde vai;
morte tolhida
sem anúncio
que entrou sem avisar
saltando a veneziana
e se escondendo sob a mesa
correndo fugaz, tão veloz
que ninguém soube
o que havia sido
pássaro ou avião
morte entre nossos atos
na simplicidade da nota musical
um minuto
desde que a morte
pousou em nossos ombros
e alçou o voo
destrambelhado
farfalhando perolada
até o canto da parede
e por lá mesmo ficando
(desde então
não se fala mais nisso).