12/08/2017

meio-dia é um péssimo horário para morrer (ou Gentilândia)

vimos o corpo estirado
em frente à banca do seu Antônio
carnes abertas sob o sol a pino
tingido em vermelho viscoso. 

algum dos passantes comentou que meio-dia
é um péssimo horário para morrer:
não há vento que espane os cheiros da morte
impregnados em nosso suor pelo resto do ano.

das mesas da praça 
alguém aponta para o cadáver
enquanto come um naco de carne
bebe um gole de cerveja e diz:
a cidade anda assim ultimamente.

seguimos a avenida em direção à praia
o morto ficou para trás
árvores sussurram

hoje é a sexta-feira mais bonita do mês.

seu Antônio colocou um pano branco sobre o cadáver
os passantes já não o olham
nas mesas, o almoço continua
e desde então
não se fala mais nisso. 

17/06/2017

o silêncio entre os corpos

[coléricas chupadas
sob a parca luz
de salas sujas
disfarçam o silêncio
que se estende entre os corpos;
uma gota do gozo
dissolvida 
sobre a superfície do dia
torna turva a visão da verdade

crua resolução:
deixada para depois
de homéricas trepadas
em salas frias

língua-circula-quente
acima, abaixo
ao centro, adentro
um, dois, três
até que se sinta
o cítrico gosto 
do nada

a voz, disforme e pantanosa, se cala:
nada há de ser dito
que eu queira saber
ou já não saiba]

15/06/2017

do bico da garça ao estômago da besta

o abismo cavado entre os corpos
se alarga e por ele escorregamos
risonhos e ásperos, como quem 
sempre soube que seria assim:
rinocerontes marchando contra a correnteza;
peixes franzinos levados do bico da garça 
ao estômago da besta

se não fosse assim desde o início 
talvez não fosse, a princípio. 
e aí restaria a paz asséptica, sintética
de cômodos vazios
e lençois limpos estendidos 
sobre vermelhas fúrias

não haveria lambida felina ferindo a pele
unhas angulares penetrando reentrâncias
sem pelos escorrendo pelo ralo
dia após dia como se nada houvesse
além disso:
corpos tateando espaços
para poderem se pertencer.

[na beira do precipício
quem testemunhar a queda
jamais saberá que poucos descaminhos
foram tão felizes] 

02/05/2017

o próximo colapso


o próximo colapso se estende sob o fôlego
no estalo da palavra desordeira:
está no amor que nasce
tremulando sobre as pernas
e no que em silêncio morre
em uma quarta de Novembro

o próximo colapso 
não avisa quando vem
visitante inesperado no mais quente dia do mês.
insinua-se sob a calma, cala o tesão dos corpos
e decepa friamente 
a palavra ainda no ventre.

o próximo 
colapso
ameaça ser fatal:
entre as luzes da avenida
no romper de um dia banal

próximo
colapso

é como terceiro passo
que ecoa no silêncio de um poema.

23/04/2017

domingo


dez copos d'água para cobrir o vazio
dezesseis passos de cá para lá.
as visitas já começam a ser um peso
mesmo que no início tenhamos
pensado que não.

as visitas têm um prazo de validade:
um mês, duas semanas 
e alguns hábitos.

cinco escovadas de dente
em menos de quatro horas:
o café continua frio sobre a mesa.
são silenciosas as lutas do amanhã
e inevitáveis
mesmo que digamos 
e saibamos
que nada seja certo 
realmente.

duas páginas lidas 
quatro horas dormidas
o noticiário ainda fala
sobre os ônibus queimados.
seria estranho se tudo isso findasse
assim:
no momento em que riscamos o fósforo
para acender o terceiro cigarro
e bebemos o décimo primeiro copo d'água
sem sede alguma
enquanto na sala o repórter fala
que os criminosos se desculpam
pelo transtorno.

sete banhos por dia para lavar do corpo
a pele morta das lembranças vãs.
varejeiras zunem ao redor d'água:
é possível que qualquer coisa
tenha morrido aqui.
virilha abaixo os pelos escorrem
em promessa de renascimento.

seria estranho se tudo isso findasse assim.

01/02/2017

às vezes transbordo, mas sou raso



penso que o sexo é banal.
não me afeta o mundo e seus descasos.
às vezes transbordo, mas sou raso.
e se me inquieto: o orgasmo
distraindo horas descontentes.
o rancor é fera de silêncios
e às vezes penso nos desfechos.
pego quatro ônibus por dia.
leio cinco contos muito breves.
choro um choro fino de um minuto.
nada disso resta após a curva.


12/01/2017

é preciso emergir


é preciso do tempo
respirar entre silêncios
ter o mundo e dele saber-se parte: 
ser seiva, ser húmus.

é preciso emergir 
abraçar as ausências
ter manhã livre
para contar as nuvens
desfazer os nós
violar tratados
e perder a hora de chegada.

é preciso construir a ponte para o outro lado
mas destruí-la de imediato
após a travessia.

seguir.

é preciso estar só
e saber-se sozinho
um minuto que seja
num dia qualquer 
sem tropeçar
nos próprios pés
adejando e caindo
levitando
sobre paragens vazias
como se fosse o abismo
solução.