em frente à banca do seu Antônio
carnes abertas sob o sol a pino
tingido em vermelho viscoso.
algum dos passantes comentou que meio-dia
é um péssimo horário para morrer:
não há vento que espane os cheiros da morte
impregnados em nosso suor pelo resto do ano.
das mesas da praça
alguém aponta para o cadáver
enquanto come um naco de carne
bebe um gole de cerveja e diz:
a cidade anda assim ultimamente.
seguimos a avenida em direção à praia
o morto ficou para trás
árvores sussurram
hoje é a sexta-feira mais bonita do mês.
seu Antônio colocou um pano branco sobre o cadáver
os passantes já não o olham
nas mesas, o almoço continua
e desde então
não se fala mais nisso.