12/08/2017

meio-dia é um péssimo horário para morrer (ou Gentilândia)

vimos o corpo estirado
em frente à banca do seu Antônio
carnes abertas sob o sol a pino
tingido em vermelho viscoso. 

algum dos passantes comentou que meio-dia
é um péssimo horário para morrer:
não há vento que espane os cheiros da morte
impregnados em nosso suor pelo resto do ano.

das mesas da praça 
alguém aponta para o cadáver
enquanto come um naco de carne
bebe um gole de cerveja e diz:
a cidade anda assim ultimamente.

seguimos a avenida em direção à praia
o morto ficou para trás
árvores sussurram

hoje é a sexta-feira mais bonita do mês.

seu Antônio colocou um pano branco sobre o cadáver
os passantes já não o olham
nas mesas, o almoço continua
e desde então
não se fala mais nisso.