Corra, garota – eu digo
Só não quero que deixe essa tristeza quebradiça
Sempre em tons de cinza
Invadir-lhe o rosto
Quando eu falar que a vida não tem essas cores
Que você pensa.
Corra, garota – corra da vida
Porque ela é sempre assim:
Um sopro quente que atravessa a garganta
E te enche com as veias pulsantes da existência
Mas nunca, meu amor, tem gosto agradável.
E eu digo corra – corra antes que a vida lhe alcance
Porque os braços dela sempre foram muito longos
Como seus pequenos momentos tão alvos, tão teus, tão leves que são
Sempre pareceram muito sinceros
E não tão efêmeros quanto são
Assim como as palavras eufemísticas
Quase convincentes
Sempre pareceram - quase - cheias de razão.
Mas eu digo corra, garota
E você diz que “sem problemas”
Diz que sabe que a vida não é tão boa
Aprendeu com os livros
Que ela sempre tem um pedaço do amargo
E uma dose da ilusão.
Diz ainda que prefere esses anjos de pedra
Com as mãos unidas sob o sol
E essa areia fofa
Tão boa para deitar
Com a morte sob o chão.
Mas olha, garota, tem cuidado
Esses corvos que pousam nas lápides
Não recitam poemas para ti
Nem admiram o teu medo da vida
Eles só esperam que tua pele empalideça
Que teu corpo padeça
Que tua carne apodreça.
Não fique tão triste
Se eu disser que a morte também nunca foi bonita.
Assim como a vida
Ela esconde sua verdade em poesia
Ah, sim!
E você diz que é indelicado falar isso
Porque vida são essas avenidas vazias com detalhes bonitos em um dia de Agosto
É um rumo imprevisível - lar de sonhos, lar de monstros
(sonhos são é convidados com data de partida)
É uma explosão, sim
Uma implosão, quer dizer
Que te tira o fôlego
Que te engasga
Te tortura
Mas nunca, por Deus, te finaliza.
E por que o faria, afinal?
Vê?
Morte sempre foi placidez desejada
Lençol de indulgência
Doce, recheio com gosto de nostalgia
O momento final, a utopia
Por que julgar os corvos, meu amor? Ela pergunta
Se aí fora, na vida, todo mundo quer te devorar também.
(e não precisa nem morrer, viu? não precisa nem apodrecer!)
Para, garota
Para com essas verdades
Que nunca foram tão comprovadas
Para com essas verdades literárias
Que nunca foram assim tão sólidas, vê?
O fato é que vida e morte
São telas em branco
Que você
A artista
Pinta
Vive pintando
Pinceladas graves, coloridas, com cores que te pertencem
Mas você insiste dizer que pertencem a vida, pertencem a morte
Essas cores que você cria.
Ah, meu amor
Corra
Mas jure que quando enxergar tudo isso com mais sinceridade
Não vai ficar tão triste
Vendo que vida e morte
São, tão simplesmente, teus sonhos mais profundos
Não fique cabisbaixa
Depois de provar uma dose de vida
Uma dose de morte
E não achar nenhuma das duas assim tão libertadoras
Mas enquanto isso, garota
Corra
Corra, mesmo
Corra, garota.
Porque todos esses teus rumos
Assim tão labirínticos
São só cheios de abismosDe extremos
E de destinos
Que te levam ao mesmo caminho.

"There's a vulture on my shoulder and it's telling me to give in. Always hissing right in my ear, like it's coming from my own head." Li esse texto ouvindo Fixed at Zero. Tenho a impressão de que você não gosta de VersaEmerge, mas a sensação foi boa.
ResponderExcluirJá disse e repeti que você é um ótimo escritor, só acho que deveria escrever mais sobre mim. troll*
Lindo, Matt, como sempre.
"Corra, Lola, corra." Fiquei repetindo isso enquanto lia o texto porque sou mesmo. kkk bjs
ResponderExcluirOlha, achei foda. E essa imagem, gente? Digníssima!
"Corra, garota – corra da vida
Porque ela é sempre assim
Um sopro quente que atravessa a garganta
E te enche com as veias pulsantes da existência
Mas nunca, meu amor, tem gosto agradável." Achei heavy. <3 *PALMAS*
Adooooro teu lado poeta, sempre digo que acho válido você explorar ele mais vezes. Engraçado que esse aí me lembrou algo meio Florence, me senti lendo a tradução de uma letra dela, sabia? hahaha. Numa vibe meio Rabbit heart, rs. E a imagem é linda, de quem é?
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