Bolsos
cheios d’água
Olhos
oceânicos
Violentos
como a luz do dia.
Lábios
pequenos
Que
se afogam na tintura facial
Em
uma mudez aparente.
Se
fosse muda, eu digo
V.
seria puro desconforto
Há
algo que sempre quer escapar
[por
seus poros
Palavras
e palavras, eu sei
Novas,
velhas e inventadas
Verdades
que tornam cada mistério do mundo
Menos
interessante
Até
que o desgaste todo...
Faça
com que seja um móvel velho e empoeirado
E
haja apenas a voz de V. atravessando
Cada
canto mofado
Sua
voz presa nas gavetas e na estante
Dizendo
que existe um abismo abaixo dos pés
Ou
acima do peito
Ou
em algum desses cantos contíguos
Não
saberia dizer
Nunca
foi médica para saber
Se
é que existe medicina para isso.
V.
nunca soube das próprias verdades
Seria
menos poética se soubesse
Seria
mais matemática
Mais
fria, eu diria, mais safa.
Sobreviveria
mais facilmente, é fato
Ainda
assim, não perderia a beleza
Seria
uma criaturinha delicada
Que
aceitava a vida sem fazer poema.
Daí,
teria um nome, faria parte da multidão
Os
bolsos estariam novamente vazios
E
os olhos negros, calmos
Estoica
O
que seria V. se fosse real?
Aquela
velha senhora que se lamenta da vida
Chorando
de tempos em tempos
Quase
acidentalmente
Ou
a aluna calada que carrega um mistério
[nas
costas?
V.
teria um nome
Poderia
ser Vina ou Victoria
Qualquer
um desses titubeantes.
Poderia
ser também uma flor
Que
nasce entre as rachaduras da parede
Sem
que ninguém perceba a beleza no ato.
Às
vezes me vejo tentando encontrá-la
Escondida
num cantinho, toda molhada
Como
se saída do oceano
Ou
de uma chuva torrencial lá fora
Toda
pálida como uma estátua de cera
Recém-feita
Que
está derretendo e tem urgência entre os atos.
Eu
sei que ela adora dias de chuva
Mas
detesta o inverno
Gosta
dos dias de chuva entre os minutos
[do
verão mais quente
Aí
há a eventualidade do tempo
A
magia estranha do universo
Correndo
como laços
Um
sobre o outro, de várias cores
Senhorita
V. enxerga o mundo assim.
Sei
que nunca a encontrarei
Não
tão longe do papel em branco
Estendendo-me
duas mãos juntas
Cheias
de areia molhada com conchinhas.
Ainda
falará dos mesmos assuntos
Reclamará
da mesma questão:
Há
um abismo que me persegue.
V.,
talvez, um dia saiba:
O
abismo é não mais que uma extensão
[dos
próprios pés
Como
um terceiro passo no silêncio.
Estamos
sempre à beira dele, é verdade.
Mas
há a salvação para almas submersas
Como
as nossas.
A
espera:
Pelo
vento fugaz
Pela
brisa chuvosa
Que
algum dia nos empurrará.