06/04/2012

Senhorita V.



Bolsos cheios d’água
Olhos oceânicos
Violentos como a luz do dia.
Lábios pequenos
Que se afogam na tintura facial
Em uma mudez aparente.
Se fosse muda, eu digo
V. seria puro desconforto
Há algo que sempre quer escapar
                         [por seus poros
Palavras e palavras, eu sei
Novas, velhas e inventadas
Verdades que tornam cada mistério do mundo
Menos interessante
Até que o desgaste todo...
Faça com que seja um móvel velho e empoeirado
E haja apenas a voz de V. atravessando
Cada canto mofado
Sua voz presa nas gavetas e na estante
Dizendo que existe um abismo abaixo dos pés
Ou acima do peito
Ou em algum desses cantos contíguos
Não saberia dizer
Nunca foi médica para saber
Se é que existe medicina para isso.
V. nunca soube das próprias verdades
Seria menos poética se soubesse
Seria mais matemática
Mais fria, eu diria, mais safa.
Sobreviveria mais facilmente, é fato
Ainda assim, não perderia a beleza
Seria uma criaturinha delicada
Que aceitava a vida sem fazer poema.
Daí, teria um nome, faria parte da multidão
Os bolsos estariam novamente vazios
E os olhos negros, calmos
Estoica
O que seria V. se fosse real?
Aquela velha senhora que se lamenta da vida
Chorando de tempos em tempos
Quase acidentalmente
Ou a aluna calada que carrega um mistério
                                          [nas costas?
V. teria um nome
Poderia ser Vina ou Victoria
Qualquer um desses titubeantes.
Poderia ser também uma flor
Que nasce entre as rachaduras da parede
Sem que ninguém perceba a beleza no ato.
Às vezes me vejo tentando encontrá-la
Escondida num cantinho, toda molhada
Como se saída do oceano
Ou de uma chuva torrencial lá fora
Toda pálida como uma estátua de cera
Recém-feita
Que está derretendo e tem urgência entre os atos.
Eu sei que ela adora dias de chuva
Mas detesta o inverno
Gosta dos dias de chuva entre os minutos
                           [do verão mais quente
Aí há a eventualidade do tempo
A magia estranha do universo
Correndo como laços
Um sobre o outro, de várias cores
Senhorita V. enxerga o mundo assim.
Sei que nunca a encontrarei
Não tão longe do papel em branco
Estendendo-me duas mãos juntas
Cheias de areia molhada com conchinhas.
Ainda falará dos mesmos assuntos
Reclamará da mesma questão:
Há um abismo que me persegue.
V., talvez, um dia saiba:
O abismo é não mais que uma extensão
                                [dos próprios pés
Como um terceiro passo no silêncio.
Estamos sempre à beira dele, é verdade.
Mas há a salvação para almas submersas
Como as nossas.
A espera:
Pelo vento fugaz
Pela brisa chuvosa
Que algum dia nos empurrará. 


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