28/06/2012
O nascimento de R. (Anadyomene)
Encontrei Rosa nascendo na areia
Sob meus pés
Os fios vermelhos de seu cabelo
Perdidos
Na espuma do mar.
23/06/2012
[Página trinta e um]
[O meu silêncio se torna cada vez mais labiríntico; as
palavras me são arrancadas sem que eu as diga e as conclusões dadas sem meu
protesto. Deve ser assim mesmo. É o preço que se paga por uma ou outra questão
respondida. A verdade é que, em questão de horas ou minutos, eu me desvendei
por inteiro, redobrando-me e enlaçando-me em mil caminhos que sempre levavam a
outros, em mil e uma epifanias que, na manhã seguinte, já não existiam mais.
Acima de tudo, é efêmero, mas plenamente efetivo. Antes o silêncio só me trazia lágrimas aos
olhos e entregava-me ao sono rapidamente, mas agora traz mais vozes, mais
gritos, ânsias que não me permitem o sono, como se o tempo fosse pequeno ou
vasto demais para alguém como eu. Até mesmo esperanças surgem, não hei de
mentir; sorrisos súbitos que se tornam inexistentes à luz do dia, dando lugar
ao mesmo mundo de tom carmesim - sonhos abarrotados em lençóis, escondidos sob
o travesseiro, adormecidos pelo fluxo de vida solta. A melodia pesada, de
vozes contrastantes, fala por mim: Acordei morto nessa manhã.]
07/06/2012
Agnes
Que
me percorra o corpo com os lábios
Jovens
e virginais
Rosados
Carregando
o antigo peso Dela
No
movimento circular da língua.
A
sabedoria dos olhos
Eclipsada
pelo verde ametista.
A
alma antiga e secular
Presa
no corpo de menina.
Deixe
que minhas mãos acariciem e tomem
Os
seios pequenos ainda em formação
Não
mais que duas flores sedosas
Rosadas
Cheirosas
E
sinta o mesmo calor de antes.
Ela
voltou no tom vermelho dos cabelos
Escondida nos cachos
Entre
os poros de mármore da pele.
Vejo,
por trás desses treze anos, treze a mais
E
por trás do sexo juvenil a mesma libido
[de
quinze anos atrás.
03/06/2012
Entre as quatro paredes descascadas
nossas conversas estão frias
servidas à mesa
e as comoções adormecidas
na sala de estar.
nós, já não mais rutilantes
ululantes; mas insípidos
como o almoço
servido às três
atados por circunlóquios
e clandestinas vontades
quimeras adormecidas
e meias verdades.
servidas à mesa
e as comoções adormecidas
na sala de estar.
nós, já não mais rutilantes
ululantes; mas insípidos
como o almoço
servido às três
atados por circunlóquios
e clandestinas vontades
quimeras adormecidas
e meias verdades.
02/06/2012
Vargtimmen
Estarei para sempre aprisionado na
hora vazia
Oculta entre os três ponteiros do
relógio.
O oco minuto em que as cortinas se
fecham
E as sombras escorrem
De um silencioso crepúsculo.
A existência estará encarcerada
Na hora do lobo
Onde o grito corta a noite
Em
plenilúnio
E cada dia bonito
Coberto pela
fina poeira
Que me veste os olhos.
Vejo, em meus sonhos, as ondas negras
Ricocheteando o céu
O homem vestido de corvo
O homem vestido de corvo
E minha fuga silenciosa
Entre a vermelha espuma do mar.
Sei que um dia eles irão me alcançar
Os braços pálidos e dedos frios
Sussurros cálidos
Arrastando-me em silêncio
À mesa fria
Onde irão me devorar.
Onde irão me devorar.
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