Rosa partiu e nem avisou. Deixou que o vento a levasse assim, facilmente. Como fumaça se dissipou, tornando-se muitas entre os vácuos do mundo. De tanto dividir-se, desbotou-se, e hoje o vermelho dos cabelos se tornou acobreado e o verde dos olhos um translúcido e esquálido tom de acaju. A vida a tomou, a tocou, a maculou - antes ampla demais, agora já nem sei. Será que eu reconheceria Rosa se a encontrasse perdida na avenida ou por trás da vitrine de alguma livraria, folheando um livro de Clarice? Ah, já nem sei... Rosa nunca pôde fugir da própria fatalidade: ou deixava-se resvalar para o abismo (sendo essa a sua sina, inquieta e irreversível) ou cedia à forçosa tarefa de existir; ou permanecia no silêncio lotado de meio-termos ou se entregava ao cárcere das palavras, sendo esses os dilemas que a transformavam, pouco a pouco, em poesia...
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