29/07/2012

Fragmento perdido sobre Rosa II



[R., as pessoas continuam me parando na avenida da Catedral só pra me perguntar sobre você. Eu quase que as olho, quase que as toco, quase que simplesmente não entendo bem essas palavras tortas, unidas e desunidas numa só afirmação. Aí eu quase que rio, quase que choro, mas a verdade é que permaneço plácido procurando já não fugir das estribeiras do silêncio. Não digo nada, vê? Continuo andando como se fossem esses pedestres nada mais que proeminentes reminiscências - assim como eu sei que você sabe que são; nós dois sabemos, quase não sabendo, que tudo o que nos cerca é incrustado de passado. Rosa, eu não os culpo: ninguém enxerga esse luto úmido e mofado que ronrona no vazio dos meus pulmões; ninguém enxerga esse meu eu silencioso já nem interessado em liberdade, porque até liberdade virou essa matéria ausente de beleza e poesia - liberdade que quase não se é, mas se sendo dolorosamente, sabe?]



23/07/2012

Dias além

os transeuntes
com seus olhares transversais
me desafiam
a te varrer dessas venezianas
envelhecidas e empoeiradas.
meu olhar veste a máscara
do orgulho intrincado
contendo o sangue da ferida aberta
por baixo do pano vermelho
encharcado.
tua ausência continua
na ponta da minha língua
e teu nome me atravessa a fala
como um ato falho.
(parapráxis que nos desune)
as avenidas me desafiam
a atravessar ruelas 
quietas e sombrias 
que ocultam
teu rosto bojudo
por trás do cimento.
ainda assim
o que me sobra é
a estranha certeza de que
já caminhei por outros lugares
e que agora caminho
por lugar nenhum.
uma velha senhora para
e me agarra 
a mão.
esconde 
por trás de seus olhinhos de corvo
prelúdios do que nos tornamos
más notícias 
na rispidez da pele.
me avisa de tua partida
como se fosse surpresa
e o que me sobra 
é o esgar silencioso.
a bossa nova me desafia
a escutar tua voz 
oculta e trôpega
por trás dos chiados do século XX
mas agora eu já conheço nossa sina.
os transeuntes me lançam esse olhar miúdo
desafiando-me a derramar tuas últimas gotas
no café da tarde 
ou sorver-te por inteiro
até que volte ao rio fervente
de onde ressuscitamos. 

18/07/2012

Entre os extremos



[Aguardo no morno pendendo entre os dois extremos: O excesso doloroso que me varra inteiramente para fora de mim ou o caminho quieto e silencioso mascarado por todas as boas intenções da cura. Será que a palavra salva? Sinto que, a cada dia, o morno esfria - e lentamente o limbo se abre, abismos se rasgam, o silêncio supura como uma vil recordação. Incômodo, eu sei, mas a verdade acaba por retornar (como todas as coisas pequenas plantadas nos átrios do peito que, súbitas, crescem e atravessam a própria fala): Penso que a morte é necessária. Antes da luz escassa que tão incerta pende no horizonte, sob as hastes divinais, a morte é necessária. E quantas vezes já não morri?, me pergunto sob a sombra da tolice de pouca idade e amarras que me pertencem como se de antigas existências. Penso que nenhuma. Todo o extremo me falta, de vida ou morte. Até meu mistério já não é mais assim tão confiável, misturando-se a todas às coisas escuras e nocivas que alimentam minha alma, como velhas certezas que agora desmoronam em efeito dominó. 


/Que toda a loucura cotidiana me assassine, mas que não haja a morte pela inanição de vida/


(como uma criança serena e ainda esperançosa a apalpar o escuro - fitando do  quarto andar o asfalto quente - espero uma ressurreição que, fugidia, pousa sobre o fôlego fraco.) 



06/07/2012

Cora (ou rascunho clandestino)



cora, tão cedo você acorda
puxando do meu silêncio
o vernáculo seco.
não há mais transbordar
em nossos corações
e, cora, apesar de tudo
somos os mesmos
do dia primeiro de julho
quando todas as coisas
resolveram, por você
brotar da guimba do cigarro.


cora, o que seríamos
se não fossem os números a te desvendar
e as letras a me puxarem
de meu eterno silêncio?
           seríamos assim como dois
           pela metade solta de uma roda-gigante
                               (nunca a se esbarrar, nunca a se encontrar
                               escorregadios entre os parênteses do mundo)


       moça, um dia me conte seus segredos
       mesmo que eles te custem 
       o estraçalhar de um nervo
        
       


    ou quiçá o simples evanescer de um encanto 
    que te faz tão sólida pelas manhãs invernais. 



05/07/2012

Em sanidade



Servil, imunda, rasgada
Por baixo da saia
A marca do cigarro
E entre as pernas
A letra escarlate que nos une.
Assassina! De todo o meu pejo
E mais vis desejos
Incita como toureira espanhola
Com seu beijo rubro e borrado
Tudo o que se descolore em mim.
Assassina! Como se não me bastassem os dias
E as vis sobrevivências 
Entre os comas da rotina
Agora a maresia de seu toque
Desgasta a estribeira 
De minha palavra arredia.
Assassina! Nunca é bastante
Esse meu corpo retalhado
Ou o grito entre lençóis. 
Na minha carne, enfia a unha afiada
Vermelha e descascada
Até que minhas feras despertem
Da escuridão que as guarda.
"Compre-me um cigarro", ela diz
"Pois a manhã já chega
E em breve seremos só caos 
Úmidos e áridos
Entre os lençóis.
O dia nos abrigará, amor
E nem perceberá toda a vergonha 
Que nos escorre.
E o que é que seriam de todos os demônios
Se não fôssemos nós 
A carne rubra que os alimenta?"
E aí ela silencia 
Como se assim fosse permanecer
Pelo resto dos anos e séculos e dias
E como se por trás da roupa limpa
E mordaça firme
Não guardasse as fúrias
Que nos tecem. 
Na sombra da noite
Nua de todas as nuvens
Despida da máscara de pinos firmes
Sussurra que, no fundo, o que quer é a dor
E que quanto mais firme a mão
Mais viva a alma.
Ah! Tão árida...
Pede, inquieta, que eu apague a luz da vela 
Em seu peito
E eu
Servil, imundo e rasgado
Obedeço
Até que na escuridão 
Só sobre nossa verdade anil
A brilhar entre os seus seios. 

01/07/2012

Lei dos abismos


O passo ao abismo não se reverte
A mão que se estende não vai recuar
De todos os corpos e valas profundas
Palavra não dita é o que há de sobrar.