[Aguardo no morno pendendo entre
os dois extremos: O excesso doloroso que me varra inteiramente para fora de mim
ou o caminho quieto e silencioso mascarado por todas as boas intenções da cura.
Será que a palavra salva? Sinto que, a cada dia, o morno esfria - e lentamente
o limbo se abre, abismos se rasgam, o silêncio supura como uma vil recordação. Incômodo, eu sei, mas a verdade acaba por retornar (como todas as coisas
pequenas plantadas nos átrios do peito que, súbitas, crescem e atravessam a
própria fala): Penso que a morte é necessária. Antes da luz escassa que tão
incerta pende no horizonte, sob as hastes divinais, a morte é necessária. E
quantas vezes já não morri?, me pergunto sob a sombra da tolice de pouca idade e amarras que me pertencem como se de antigas existências. Penso que nenhuma. Todo o extremo me
falta, de vida ou morte. Até meu mistério já não é mais assim tão confiável,
misturando-se a todas às coisas escuras e nocivas que alimentam minha alma, como velhas certezas que agora desmoronam em efeito dominó.
/Que toda a loucura cotidiana me assassine, mas que não haja a morte pela inanição de vida/
/Que toda a loucura cotidiana me assassine, mas que não haja a morte pela inanição de vida/
(como uma criança serena e ainda esperançosa a apalpar
o escuro - fitando do quarto andar o asfalto quente - espero uma ressurreição que, fugidia, pousa sobre o fôlego fraco.)