05/07/2012
Em sanidade
Servil, imunda, rasgada
Por baixo da saia
A marca do cigarro
E entre as pernas
A letra escarlate que nos une.
Assassina! De todo o meu pejo
E mais vis desejos
Incita como toureira espanhola
Com seu beijo rubro e borrado
Tudo o que se descolore em mim.
Assassina! Como se não me bastassem os dias
E as vis sobrevivências
Entre os comas da rotina
Agora a maresia de seu toque
Desgasta a estribeira
De minha palavra arredia.
Assassina! Nunca é bastante
Esse meu corpo retalhado
Ou o grito entre lençóis.
Na minha carne, enfia a unha afiada
Vermelha e descascada
Até que minhas feras despertem
Da escuridão que as guarda.
"Compre-me um cigarro", ela diz
"Pois a manhã já chega
E em breve seremos só caos
Úmidos e áridos
Entre os lençóis.
O dia nos abrigará, amor
E nem perceberá toda a vergonha
Que nos escorre.
E o que é que seriam de todos os demônios
Se não fôssemos nós
A carne rubra que os alimenta?"
E aí ela silencia
Como se assim fosse permanecer
Pelo resto dos anos e séculos e dias
E como se por trás da roupa limpa
E mordaça firme
Não guardasse as fúrias
Que nos tecem.
Na sombra da noite
Nua de todas as nuvens
Despida da máscara de pinos firmes
Sussurra que, no fundo, o que quer é a dor
E que quanto mais firme a mão
Mais viva a alma.
Ah! Tão árida...
Pede, inquieta, que eu apague a luz da vela
Em seu peito
E eu
Servil, imundo e rasgado
Obedeço
Até que na escuridão
Só sobre nossa verdade anil
A brilhar entre os seus seios.
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