25/02/2013

 Ao fim do dia


ainda bem que lá fora o mundo continua vivo e inerte às nossas lamúrias. ainda bem que os noticiários contam os mesmos fatos e os jornais se repetem com mesma argúcia. ainda bem que ao fim do dia e ao fim do choro, ao fim do grito e da angústia, o universo permanece firme como a ponta de um compasso no papel. os ônibus passam, lotam e se atrasam, seguindo a mesma rota dia após dia: indiferentes à labuta; indiferentes à choraria. o que há de certo para mim é o "lá fora", pois depois da escuridão as ruas continuam as mesmas. ainda bem.


[que loucura seria

o mundo aos nossos pés
ciente de nós!]


19/02/2013

Nouvelle Vague


agora que os passos se calam e a luz se revela no céu, vejo teu rosto. rimos como dois amantes, compartilhamos o silêncio, arquitetamos um futuro divinal. você está sujo de tinta - vermelho escorrendo dos dentes, azul sob as unhas cortadas, a sola dos pés em magenta - e eu permaneço entre tons monocromáticos, esquálida e descolorida esperando teu sopro de vida. meus dedos ágeis no piano; minha voz entoando um hino de 1950. você ri do meu tom desafinado. por trás desse riso rubro e desse rosto branco, descansa aquilo que nos une. isso não será quebrado, Pierrot - nunca, nunquinha - isso não será rompido. nem de cinquenta anos pra lá, nem no fervilhar das estações. compartilhamos os mesmos gritos. a sala é quente - lá fora o trompete, o cinema antigo. 

- um dia seremos como Liv e Ingmar. - declaro. 

e você ri esse riso rouco; te sorrio meu sorriso pontual. após um breve silêncio, rimos e rimos e rimos até que a noite caia, a música cesse e a tinta seque. pois agora descansamos - eu Anna Karina, você Godard.


11/02/2013


Mesmo quando grito: silêncio. Por trás de tudo, mera distração de mim. Eu quero estar sem fôlego no mais violento dos mares, atracado entre ondas selvagens, levitando sob a correnteza. Eu quero os pés calejados de fuga, pele rasgada por espinhos, garganta entalada com areia. Quero efervescência, ausência de cadência. Na noite mais solitária: incandescência. O perder-se mais uma vez; letargia de dentro pra fora. Achar-se e resgatar-se, apesar de. Esquecer-se do nome, queimar o papiro, rir-se, ir-se... Diz-se: Foi-se! Mesmo quando os pés atropelarem os passos e os passos atropelarem os pés: continuar. Foi-se! O casulo enegrecido jogado na areia. O corpo ausente, perdido. Por trás da pressa, mera distração de mim. Afaste os braços - eu disse - não me segure, deixe-me ir. Na roda viva corro sobre o abismo. Se parar: cair.