agora que os passos se calam e a luz se revela no céu, vejo teu rosto. rimos como dois amantes, compartilhamos o silêncio, arquitetamos um futuro divinal. você está sujo de tinta - vermelho escorrendo dos dentes, azul sob as unhas cortadas, a sola dos pés em magenta - e eu permaneço entre tons monocromáticos, esquálida e descolorida esperando teu sopro de vida. meus dedos ágeis no piano; minha voz entoando um hino de 1950. você ri do meu tom desafinado. por trás desse riso rubro e desse rosto branco, descansa aquilo que nos une. isso não será quebrado, Pierrot - nunca, nunquinha - isso não será rompido. nem de cinquenta anos pra lá, nem no fervilhar das estações. compartilhamos os mesmos gritos. a sala é quente - lá fora o trompete, o cinema antigo.
- um dia seremos como Liv e Ingmar. - declaro.
e você ri esse riso rouco; te sorrio meu sorriso pontual. após um breve silêncio, rimos e rimos e rimos até que a noite caia, a música cesse e a tinta seque. pois agora descansamos - eu Anna Karina, você Godard.