essa ardência no peito, esse peso intragável, é mal de nascença. os cataclismos que a rotina me traz: peças de um deus sacana. deixa aí esse pobre diabo tropeçar nos próprios pés, deixa pendurado o corpo dele sobre o poço, larga o guindaste até a boca do inferno onde tudo é vil. dormir com um choro entalado, um engasgo que nunca vem, resíduos atolados na garganta - a esperança é um sonho bom que lava a escória grudada na pele. eu sou o bicho mais sensível do mundo, fera mais vulnerável, hiena solitária a devorar os restos no escuro. a vida fica estampada em mim longo tempo como tatuagem de azul incandescente - durmo, acordo, e o fulgor dos olhos ainda arde na pele. talvez eu, desastroso como sou, devesse permanecer como um passarinho acuado: empoleirado sobre a multidão, empoleirado sobre a existência; cantando meus cantos de tristeza, lamentando meus lamentos, poetando meus poemas de ardor. mas lá estou eu - aqui estou eu, acolá eu estou - sendo extraviado pra outros céus, varrido por ventos travessos, rodopiantes monções que me inflam as asas; mergulhado em mares profundos e estéreis, que guardam em sua escuridão seres de face tresloucada. eu que o diga: prefiro o silêncio. sou de meus vícios, de meus escuros; contrato vitalício com meus demônios. quando vem esses desvios, esses horrores, essas peças que os deuses me pregam e me fazem fugir da vida tanto quanto Dafne do Amor, só se pode enxergar via de mão única pra rua sem saída, olhar pro céu e clamar aos santos que meus pés criem raízes e meus braços virem ramos; e o corpo se tronque inteiro, como um majestoso loureiro, até que não me arranquem desse chão.
