23/10/2014
Sobre o vazio das últimas horas
em meus olhos
silêncio perdura
lábios cerrados num fio
meu corpo
retesado e nervoso
sangue derramado
sístole e diástole
pulso irrequieto
nada mais
além disso.
mas aqui dentro, te juro:
babilônias construídas
mares e ilhas
multidões amalgamadas
vozes e olhos
cidades à vista
num horizonte de cores
vibrantes.
mas para além de mim nada escapa
tudo morre no peito
antes de nascer
e virar palavra.
20/10/2014
O prazer de degradar-se
Nos leitos de ferro e nas ruas rançosas:
Nossos retornos inesperados.
Entre bocas molhadas e carnes abertas
Pecados supuram sangrando.
De meus lábios, banhados em sacrilégios
Jamais ouvirá que te amo
Pois amor, meu bem, há muito não nos serve.
O que nos serve são
Cidades arruinadas
Salas defasadas
Quartos empoeirados;
Palavras sujas
Sussurradas nos ouvidos
Dentes na carne fincados.
O que me serve
É o êxtase da dor
E não o toque da paixão
Que paixão, meu bem, é para quem
Desconhece o prazer de degradar-se.
13/10/2014
Quero fazer do teu corpo país de origem
quero fazer do teu corpo país de origem
explorar tua carne e colonizá-la
com a palma das minhas mãos.
sob tua pele farei moradia, dócil e silencioso
incitando teus sentidos mais primários.
quero percorrer teus territórios inexplorados
com a ponta da língua
em cada espaço dos teus ossos
deitar meus lábios
quentes e ávidos
pelo sabor que de ti escorre.
em tuas pernas, em teus braços
quero me exilar
oculto entre as costelas
ou no oco das clavículas;
e jamais ser devolvido ao mundo
encarcerado, à deriva
na ilha inebriante de teu corpo.
11/10/2014
Fragmento perdido sobre Rosa
Rosa partiu e nem avisou. Deixou que o vento a levasse assim, facilmente. Como fumaça se dissipou, tornando-se muitas entre os vácuos do mundo. De tanto dividir-se, desbotou-se, e hoje o vermelho dos cabelos se tornou acobreado e o verde dos olhos um translúcido e esquálido tom de acaju. A vida a tomou, a tocou, a maculou - antes ampla demais, agora já nem sei. Será que eu reconheceria Rosa se a encontrasse perdida na avenida ou por trás da vitrine de alguma livraria, folheando um livro de Clarice? Ah, já nem sei... Rosa nunca pôde fugir da própria fatalidade: ou deixava-se resvalar para o abismo (sendo essa a sua sina, inquieta e irreversível) ou cedia à forçosa tarefa de existir; ou permanecia no silêncio lotado de meio-termos ou se entregava ao cárcere das palavras, sendo esses os dilemas que a transformavam, pouco a pouco, em poesia...
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