30/05/2015

terranatal


de tantas lonjuras virá me resgatar?
a areia revolve os pés
sinuoso me visto de juncos 
porque do rio emergi como das sombras
peixe preso agonizante no anzol
arremessado à margem errante 
e movediça. 
meu coração agora
é todo doença de saudades
o corpo padece nostálgico
sobre as calçadas pedregosas
da terra que não é minha.
depois de morto, desejo
que o mar me devolva aos entes
à nascente que jorra de alturas tantas
onde serei lodo entre rochas.
forasteiramente, me entrego às resistências
finco as unhas, apreendo parte minha
que de lá ainda pulsa
sem deixar escapar.
se as raízes forem arrancadas 
de nossas turvas águas negras
e eu por inteiro me entregar 
aos caprichos desse mar
algum dia virá me resgatar?
são tantas as ternuras que me desgastam 
há de se saber sobreviver sem elas
tentar-me ser além do que tenho -
jacinta de asas cortadas.
traço retornos no papel em branco
algum dia as águas se abrirão de novo?
pois jamais consigo voltar
a passagem se fecha ao toque
tal qual mimosa pudica
rumos dão voltas sobre si mesmos
trazendo-me ao ponto de partida.

terra natal, quando abandonada, nos esconjura.

garganta abaixo


[ele quer usurpar o que há de recente em mim. com os lábios escuros, me explora; com as mãos cruéis tateando meu corpo - carne nova, trêmula - eu todo arredio querendo retorno. não há prazer no jeito que me envolve com os braços curtos - pássaro fora do ninho; mãos forasteiras. sou todo resistências quando peço perdão, boca molhada pagando penitências. esse gosto é o gosto que a morte tem, o gosto do fim da linha, sabor salobro de ruína. ele: 50 anos perdidos nesses olhos velhos de pássaro, nesse corpo arremessado contra a correnteza do desgaste - deixe, meu bem, deixe; de nada vale tanto grito contra o inevitável: o cheiro da devastação perdura sob qualquer perfume. tudo agrava. um dia, nem forças para sustentar o que há de indomesticável em mim ele terá. eu, que rechaço mediocridades, deixo que ele me tenha. ele que nada possui a ser usurpado. galho seco dançando com o vento, solitário. ainda que nada sobre, deixo que pouco a pouco me destroce, dia após dia, incansavelmente esvaziado. tenho gosto por tudo que me aproxima do fim. envolvido pela cauda do diabo, boca aberta clamando, excitado - ele está me revolvendo, enlaçando, se enfiando e devorando, escorrendo garganta abaixo.]


18/05/2015

limbo


hoje tudo é silêncio
nada renasce.
face a face com o que sobrou
e foi evitado:
sem fuga.
o corpo inteiro dormente
sob cinérea mortalha:
não há pulsão para avanço.

é insidioso o desejo de não mais sair daqui.

lá fora há muito 
hoje, nada que me caiba.
as tropas continuam sem mim
as nuvens, os ônibus, os pássaros
os outros e seus anseios.

aguarda-se um novo amanhecer que ameaça não vir. 

16/05/2015

más siderações


atinando em avenidas rutilantes
agonizo febril sob o sol de Maio:
de um lado, chacais sob a carne
desejo e impossibilidade
demônios que escalam
dos tornozelos ao escalpo
e violentamente exigem seu lugar
do outro,  rostos impassíveis
evanescendo por trás 
das janelas dos ônibus
sabendo-se pouco, pois a pressa é toda
e sabendo-me todo ruínas 
através destas calçadas intermináveis.
a garganta ardendo arranha e agride 
a tosse quer expulsar os vícios
que me envolvem e dilaceram
como afiadas unhas
dançando nas entranhas.
mas não, meu bem
não há solução
nos livros poemas ensaios
no tempo que aqui se perde
e jamais é retornado
não há solução para os que
desde o início
tem a marca braseante
dos errantes
na carne.

o que me sobra é carregar 

este fardo como troféu
erguendo-o sob a luz escaldante 
do meio-dia.
já não enxergarei fatalidade
em breves desvarios, não:
eles dizem que é tudo questão de tempo.

06/05/2015

correnteza


disso estou farto:
rotineiramente entregue
ao encalço
que sigo sem saber por que.

guiado sabe-se lá
para onde
flertando com
o não-saber:
o fim quem sabe seja
o que supostamente
eu deva ser.