[ele quer usurpar o que há de recente em mim. com os lábios escuros, me explora; com as mãos cruéis tateando meu corpo - carne nova, trêmula - eu todo arredio querendo retorno. não há prazer no jeito que me envolve com os braços curtos - pássaro fora do ninho; mãos forasteiras. sou todo resistências quando peço perdão, boca molhada pagando penitências. esse gosto é o gosto que a morte tem, o gosto do fim da linha, sabor salobro de ruína. ele: 50 anos perdidos nesses olhos velhos de pássaro, nesse corpo arremessado contra a correnteza do desgaste - deixe, meu bem, deixe; de nada vale tanto grito contra o inevitável: o cheiro da devastação perdura sob qualquer perfume. tudo agrava. um dia, nem forças para sustentar o que há de indomesticável em mim ele terá. eu, que rechaço mediocridades, deixo que ele me tenha. ele que nada possui a ser usurpado. galho seco dançando com o vento, solitário. ainda que nada sobre, deixo que pouco a pouco me destroce, dia após dia, incansavelmente esvaziado. tenho gosto por tudo que me aproxima do fim. envolvido pela cauda do diabo, boca aberta clamando, excitado - ele está me revolvendo, enlaçando, se enfiando e devorando, escorrendo garganta abaixo.]