atinando em avenidas rutilantes
o que me sobra é carregar
este fardo como troféu
agonizo febril sob o sol de Maio:
de um lado, chacais sob a carne
desejo e impossibilidade
demônios que escalam
dos tornozelos ao escalpo
e violentamente exigem seu lugar
do outro, rostos impassíveis
evanescendo por trás
das janelas dos ônibus
das janelas dos ônibus
sabendo-se pouco, pois a pressa é toda
e sabendo-me todo ruínas
através destas calçadas intermináveis.
e sabendo-me todo ruínas
através destas calçadas intermináveis.
a garganta ardendo arranha e agride
a tosse quer expulsar os vícios
que me envolvem e dilaceram
como afiadas unhas
dançando nas entranhas.
mas não, meu bem
não há solução
nos livros poemas ensaios
no tempo que aqui se perde
e jamais é retornado
no tempo que aqui se perde
e jamais é retornado
não há solução para os que
desde o início
tem a marca braseante
dos errantes
na carne.
tem a marca braseante
dos errantes
na carne.
o que me sobra é carregar
este fardo como troféu
erguendo-o sob a luz escaldante
do meio-dia.
já não enxergarei fatalidade
em breves desvarios, não:
eles dizem que é tudo questão de tempo.
eles dizem que é tudo questão de tempo.