26/07/2015

ventre vazio


você está se entranhando em mim - carne recente violada - você está se estreitando pelas frestas do meu corpo. parasita com espículas e garras. o dia está vindo mais uma vez. olha. estará mergulhando em mim quando os silêncios tremeluzirem e se afogando quando as profundezas alargarem. represa rompida. disseram que seria tão sujo? olhos virgens do mundo. ensurdeço com um trinco - bicho sensível. tranquei janelas e selei portas. trancado e selado. você me atravessa. os ossos são areia. a carne é névoa. está se fincando em mim no momento em que outro dia chega. sim. findará em mim. o dia chegará. repare: não há porta de saída. 1-2-3-4-5. contabilidade da loucura. minhas pupilas vibram indo para além do cimento e do amianto onde a escuridão é nova luz com suas estrelinhas-roxas-e-meteoros-passageiros do espaço sideral. está me dividindo em mil pedaços. me remontando com as peças fora do lugar. me retomando. bumerangue arremessado ao vazio. as coisas são assim e assim devem ser mas nada sinto de correto. não, não quero um deus que me ouça: verdades minhas violariam o paraíso. arranho tuas costas. limparei a pele morta sob as unhas como quem não sente. cheirarei meus dedos como quem procura. como quem não se importa, saberei. usarei os dentes. cantarolo na aurora da noite e adubo com lágrimas a carcaça das mariposas. estarei lá estou aqui estando em ti. restando em ti. tu estando em mim afunda. heterogêneos. no fundo do corpo. nos limites escuros. ofegante. te trago de volta. num tragar só. vai, engole (agite antes de beber eles dizem) ânimos calados. está chorando? você não para. sussurra e chora de volta. as escuridões que me mantém também são tuas. cravado em mim com toda a sujeira, com toda a maldade, com todo o pecado. há pecado? com a força e frieza de escorpião, cauda erguida. ao canto do quarto você rasteja sob a meia-luz. ainda que não esteja, para sempre persiste. quando não estiver será sombra. monstro no umbral da porta. arranhar sob a parede, passo sobre o gesso. você vai embora o choro cessa os nervos rompem. dentro em mim algo vacila. pardal adormecido nas vértebras. num ligeiro movimento (não-se-mova) escoa. insidiosa semente. me olha de dentro pra fora. arde nas vísceras: rasga-ventre. pele aderida à carne aderida à pele. é o que sobra. vago do ventre. retalhos de nervos atados. os meus olhos encontram os teus. tudo sobre isto é acidental. no abismo impenetrável dos corpos não há testemunha de acusação. queda livre completa e sem retorno. para sempre. 

18/07/2015

caos


o fio das horas conduz p'ra longe
quem há de me devolver a mim?


07/07/2015

já não há retorno?


1
Do que é feita a urgência de arremessar-se ao vago desse corpo? Como ser inteiro diante de ti? Estou a rodear descaminhos? O que me traz aqui?

2
Palavra lançada ao mundo é condenação: tolhida liberdade. Caminhemos de voz atada, anonimamente sobre a corda bamba.

3
Ater-se ao tempo é descontinuar-se 

enterro minhas mãos em ti
enterro minha boca em ti
meus pecados meus vícios
enterro meus pés em ti
por todas as frestas e portas abertas
estou a me insinuar consumir

já não há retorno


02/07/2015

Mãe


vamos clamar à Mãe calamidade
que desvele apatias ocultas
que rasgue a boca nociva
destrua nichos de ódio

Mãe, manda dilúvio que arraste incertezas
são tantas as friezas 
a nos apartar.
móveis sujos esquecidos deixados
puídos gretados na sala de estar.


o café amargo eu bebo
na ponta da mesa adormeço 
varejeiras revoam, aguardam
antecipam -

suspensa a iminência
do que nunca virá.

escuta
noticiário anuncia nova morte
ouvidos atentos - dessa vez quem sabe...
ora ao Pai, saúda teus orixás:
de incompletudes a goela está cheia.

meu bem, pedir a quem
 o que nos cabe fazer?
há muito desaprendi 
a deflorar silêncios
encerrados em si mesmos de tal modo
que jamais encontram solução.

penitência é recriar cenas retrasadas
forçar portas fechadas
ensaiar em palcos vazios
elegias a ninguém.

vamos clamar à Mãe a força 
p'ra derrubar pilares
quebrar correntes, abrir os mares
partir de terras estéreis
em que esperanças não nascem.

Mãe, envia a praga que expie
dê-me a coragem de deixar
este colo que há muito
não conforta.

breve desventura anônima



um modo de existir talvez seja: amar os lençóis manchados por fluidos de outros; deitar-se em meio ao papel puído dos jornais (quantos-anos-se-passaram-desde-que...?), aceitar o remorso da vida nunca vivida; virar parte de tudo que compõe dias ultrapassados. a hora-que-vem sentencia, o minuto que espreita é o carrasco. ainda fumará daqui a dez anos. ainda viverá, mas fulgor escoará. agora, mesmo, já não há beleza: os olhares vivazes se esfumaçam em indiferença; toques de antigos amantes entristeceram a carne e ensandeceram o aspecto. ao menos sobrará um resquício inviolável, requinte independente do sopro dos anos, para que digam com um sorriso conformado: um dia, sim, houve beleza. ainda há caprichos. tempo gasto diante do espelho rachado. não importa o tráfico e o rufar dos carros; não importa, não. ama a vida pois há de se aprender a amar a vida; há de se aprender a cegar-se diante dela. acatar os lábios frios de uma morte eventual; sobreviver aos comas da rotina; aos sustos de um ou outro cruzar com um estranho na escadaria. ao menos os instantes, breves como são, ainda guardam beleza particular, distorcida e difícil aos olhos. ao menos ainda há o pátio velho e fantasmagórico, os transeuntes, as ruas que se cruzam e desaguam, os ônibus lotados e terminais apinhados. ao menos ainda há. é suficiente?