vamos clamar à Mãe calamidade
que desvele apatias ocultas
que rasgue a boca nociva
destrua nichos de ódio
Mãe, manda dilúvio que arraste incertezas
são tantas as friezas
a nos apartar.
móveis sujos esquecidos deixados
puídos gretados na sala de estar.
o café amargo eu bebo
na ponta da mesa adormeço
varejeiras revoam, aguardam
antecipam -
suspensa a iminência
antecipam -
suspensa a iminência
do que nunca virá.
escuta
noticiário anuncia nova morte
ouvidos atentos - dessa vez quem sabe...
ora ao Pai, saúda teus orixás:
de incompletudes a goela está cheia.
meu bem, pedir a quem
o que nos cabe fazer?
o que nos cabe fazer?
há muito desaprendi
a deflorar silêncios
encerrados em si mesmos de tal modo
que jamais encontram solução.
penitência é recriar cenas retrasadas
forçar portas fechadas
ensaiar em palcos vazios
elegias a ninguém.
vamos clamar à Mãe a força
p'ra derrubar pilares
quebrar correntes, abrir os mares
partir de terras estéreis
em que esperanças não nascem.
Mãe, envia a praga que expie
dê-me a coragem de deixar
este colo que há muito
não conforta.