um modo de existir talvez seja: amar os lençóis manchados por fluidos de outros; deitar-se em meio ao papel puído dos jornais (quantos-anos-se-passaram-desde-que...?), aceitar o remorso da vida nunca vivida; virar parte de tudo que compõe dias ultrapassados. a hora-que-vem sentencia, o minuto que espreita é o carrasco. ainda fumará daqui a dez anos. ainda viverá, mas fulgor escoará. agora, mesmo, já não há beleza: os olhares vivazes se esfumaçam em indiferença; toques de antigos amantes entristeceram a carne e ensandeceram o aspecto. ao menos sobrará um resquício inviolável, requinte independente do sopro dos anos, para que digam com um sorriso conformado: um dia, sim, houve beleza. ainda há caprichos. tempo gasto diante do espelho rachado. não importa o tráfico e o rufar dos carros; não importa, não. ama a vida pois há de se aprender a amar a vida; há de se aprender a cegar-se diante dela. acatar os lábios frios de uma morte eventual; sobreviver aos comas da rotina; aos sustos de um ou outro cruzar com um estranho na escadaria. ao menos os instantes, breves como são, ainda guardam beleza particular, distorcida e difícil aos olhos. ao menos ainda há o pátio velho e fantasmagórico, os transeuntes, as ruas que se cruzam e desaguam, os ônibus lotados e terminais apinhados. ao menos ainda há. é suficiente?