23/07/2012

Dias além

os transeuntes
com seus olhares transversais
me desafiam
a te varrer dessas venezianas
envelhecidas e empoeiradas.
meu olhar veste a máscara
do orgulho intrincado
contendo o sangue da ferida aberta
por baixo do pano vermelho
encharcado.
tua ausência continua
na ponta da minha língua
e teu nome me atravessa a fala
como um ato falho.
(parapráxis que nos desune)
as avenidas me desafiam
a atravessar ruelas 
quietas e sombrias 
que ocultam
teu rosto bojudo
por trás do cimento.
ainda assim
o que me sobra é
a estranha certeza de que
já caminhei por outros lugares
e que agora caminho
por lugar nenhum.
uma velha senhora para
e me agarra 
a mão.
esconde 
por trás de seus olhinhos de corvo
prelúdios do que nos tornamos
más notícias 
na rispidez da pele.
me avisa de tua partida
como se fosse surpresa
e o que me sobra 
é o esgar silencioso.
a bossa nova me desafia
a escutar tua voz 
oculta e trôpega
por trás dos chiados do século XX
mas agora eu já conheço nossa sina.
os transeuntes me lançam esse olhar miúdo
desafiando-me a derramar tuas últimas gotas
no café da tarde 
ou sorver-te por inteiro
até que volte ao rio fervente
de onde ressuscitamos. 

2 comentários:

  1. Já que não posso te dar garantias quanto à ferida, posso pelo menos dizer que - enquanto houver sangue - sempre vai haver um novo pano limpo pra encharcar e aliviar os machucados (nunca a ferida deixada vulnerável e a céu aberto, isso eu prometo). E que a gente continue ressuscitando, seja onde for, por trás do cimento ou na ponta da língua, atravessando falas, chiados e impossibilidades. (Mesmo chorando, o "rosto bojudo" sempre vai guardar um sorriso inteiro pra você)

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  2. Você é linda, Má. E eu sei disso, sei que você sempre vai ter um pano limpo pra colocar sobre as feridas, da mesma forma que eu também (apesar de tudo). E acho que nós somos feitos disso, não é? Renascimentos, ausências (que, uma hora ou outra, acabam sendo preenchidas)... e é o que mais me alivia nisso tudo: Apesar das mortes no caminho, sempre vai ter uma nascente fervente pronta pra ceder ressurreição. E obrigado, volto a repetir pela milésima vez (em toda nossa amizade): você é linda.

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