O que há de perpétuo em nós é a palavra. Com sua grandeza monumental, ergue-se entre os séculos e traz à tona a adormecida evidência do que já fomos.
28/10/2012
25/10/2012
Mnesis

Ela me olha. As mais doces ancestralidades
desabam sobre o seu rosto como delicadas pétalas. Os olhos desviam, se fecham
ao toque, arredios, ocultando séculos ininteligíveis e anos trêmulos descansados sob a retina envelhecida. As peles estão cada vez mais finas,
rasgáveis e espectrais como seda, puídas pelo tempo. Dos poros, o aroma de
ausência e abandono, daquilo que as palavras não abarcam sem deterioração e que só o silêncio, em seus incabíveis vácuos, pode guardar.
Olhos esbranquiçados recaem sobre o
vazio e enxergam a remota e intransponível lembrança: O rio drenado daquela cidade continua
a fluir pela memória, levando consigo corpos putrefatos e carcaças de peixes (sob
a pele, carne cinzenta; sobre o toque, fino papel). A grama cresce ao redor de pedras e quinas (Agora invade a casa, dona! Não lhe disseram? Flores
rupestres escalam a varanda e mostram seus rostos recém-nascidos ao mundo). A sala está vazia e empoeirada, o papel de parede desmancha e cala seculares
lamentos impregnados na tinta.
E a vizinhança, sobrevive? Como andam as
antigas faces, os falatórios intermináveis? O sangue bruto ainda corre nas
veias pulsantes dessa cidade? (A ventania arrasta árvores secas, desmancha a
madeira puída, se apossa de cadáveres abandonados à própria sorte. Monstros despertam de sua mítica existência para levar o que restou; a violência das águas acalma antigas comoções daqueles que já se foram. Morte
sob os lençóis tremeluzentes.)
Dona Maria está viva? Lembro de suas
feições delicadas, de sua quietude contida, do olhar doce e reprimido (Ela
ainda existe, é sabido, mas a tênue linha de sua existência está porosa. As
memórias se sobrepõem em busca de um sentido. Escapando da inevitável
senilidade, procuram uma linguagem que nos caiba e se deparam com um lúgubre vazio: já não há).
Envolta em toda a estranheza do
passado, volta a me olhar. Está desconcertada com a ululante realidade que se estende sobre as lembranças de tom sépia como corpo parasitário. Um sorriso
sutil se apossa dos lábios finos e envelhecidos e minhas mãos juvenis pousam
sobre as suas, ossudas e manchadas, calejadas pelo tempo.
Questiono-a em silêncio (nos questionamos
em silêncio sem saber): O passado permanece real? Tão abstrato e imaculado,
resiste ao intermitente choque do hoje? Não há resposta entre os infinitos traços
de seu rosto – marcas de outros dias. Ela não me escuta.
Volta a perscrutar um ou outro detalhe até
que se perca, rastejando novamente ao caos inerente de cada um. Como um bebê, tenta resgatar a tranquilidade estancada no útero
materno: essência mais bruta que nos forma. Já não posso puxá-la de volta. Sem
retorno e sem saída, o âmago é nossa irreversível prisão.
Súbita, com toda a sua
doçura, volta a me falar sobre os tempos de outrem. Arranca-os vívidos do
canto esquálido da memória (com-toda-a-sua-loucura). Eu enxergo os anos e os
séculos, escuto as ensurdecidas vozes e vejo silhuetas desfocadas de
desconhecidos entre os espaçamentos de suas palavras. Imagens intraduzíveis, mas
pulsantes, feitas da mesma matéria que forma os sonhos.
Vejo-a desabrochar como uma
flor. Em seus oitenta e quatro anos, cede o que, entre os meus dedos, sempre escapou; aquilo que
incansavelmente tento resgatar do silencioso e antigo vazio que os tempos habitam: vida.
22/10/2012
Do(i)s que não se fazem inteiros
E é da tua natureza que nascem as sedes que me preenchem os traços, as mãos que sombreiam os dias, a desordeira dança de quem segue a melodia instintual. É de ti que sai toda voz que tremeluz a paz, toda a ignomínia que ensurdece os meus silenciosos apelos. Com um mero toque, te faço represa contida. A minha confissão é o nosso substrato; o estranho vazio interposto entre uma palavra e outra; o arranhar de um bicho selvagem e amordaçado, encarcerado no cimento. Que somos nós, senão a sobra de algo maior? Quando te mato, sei. Cravo meus dentes na tua carne oca, enfio minha unha na tua veia viçosa: e sei. Meu amor, não se afobe, é da minha natureza que nasce essa ira de bicho ancestral, todo envolto em enegrecidos pecados e irascíveis demônios. Sussurro no teu ouvido: Peça o que não se pode ter, almeje o que já não existe, tateie o escuro em busca da palavra. A palavra não emerge. O vazio é a única voz que se pode ouvir. A voz mais fiel. Nem todas as nossas rezas silenciosas transbordam um desejo menos cru que a voz do silêncio. A voz da ausência. E, ainda assim, não nos sabemos. O que basta é escutar a própria voz.
08/10/2012
Sobre os desconhecidos
Teus olhos primaveris delatam a doçura que não
foi ensinada; transbordam o delicado dom de existir. Devo invejar teus passos firmes e tenras palavras? Há sempre a
resistência para não desmanchar dentro desse abraço tão seguro que até recoloca a alma nos esquálidos eixos; há sempre um olhar
esganiçado que tenta apreender os teus mais seguros atos - em
meu corpo, a mais desastrada imitação. Quantas dores nos separam
através das frias conversas da rotina? Quantos universos se comprimem, leitosos
e esfumaçados, entre um e outro "bom dia"?
02/10/2012
O que o silêncio nos deu
A sede pelo que não se retém.
Anônimas e gritantes ausências.
O vazio eclode no lívido enlevo
Do susto de saber-se existência.
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