E é da tua natureza que nascem as sedes que me preenchem os traços, as mãos que sombreiam os dias, a desordeira dança de quem segue a melodia instintual. É de ti que sai toda voz que tremeluz a paz, toda a ignomínia que ensurdece os meus silenciosos apelos. Com um mero toque, te faço represa contida. A minha confissão é o nosso substrato; o estranho vazio interposto entre uma palavra e outra; o arranhar de um bicho selvagem e amordaçado, encarcerado no cimento. Que somos nós, senão a sobra de algo maior? Quando te mato, sei. Cravo meus dentes na tua carne oca, enfio minha unha na tua veia viçosa: e sei. Meu amor, não se afobe, é da minha natureza que nasce essa ira de bicho ancestral, todo envolto em enegrecidos pecados e irascíveis demônios. Sussurro no teu ouvido: Peça o que não se pode ter, almeje o que já não existe, tateie o escuro em busca da palavra. A palavra não emerge. O vazio é a única voz que se pode ouvir. A voz mais fiel. Nem todas as nossas rezas silenciosas transbordam um desejo menos cru que a voz do silêncio. A voz da ausência. E, ainda assim, não nos sabemos. O que basta é escutar a própria voz.
22/10/2012
Do(i)s que não se fazem inteiros
E é da tua natureza que nascem as sedes que me preenchem os traços, as mãos que sombreiam os dias, a desordeira dança de quem segue a melodia instintual. É de ti que sai toda voz que tremeluz a paz, toda a ignomínia que ensurdece os meus silenciosos apelos. Com um mero toque, te faço represa contida. A minha confissão é o nosso substrato; o estranho vazio interposto entre uma palavra e outra; o arranhar de um bicho selvagem e amordaçado, encarcerado no cimento. Que somos nós, senão a sobra de algo maior? Quando te mato, sei. Cravo meus dentes na tua carne oca, enfio minha unha na tua veia viçosa: e sei. Meu amor, não se afobe, é da minha natureza que nasce essa ira de bicho ancestral, todo envolto em enegrecidos pecados e irascíveis demônios. Sussurro no teu ouvido: Peça o que não se pode ter, almeje o que já não existe, tateie o escuro em busca da palavra. A palavra não emerge. O vazio é a única voz que se pode ouvir. A voz mais fiel. Nem todas as nossas rezas silenciosas transbordam um desejo menos cru que a voz do silêncio. A voz da ausência. E, ainda assim, não nos sabemos. O que basta é escutar a própria voz.