25/10/2012

Mnesis

                            

Ela me olha. As mais doces ancestralidades desabam sobre o seu rosto como delicadas pétalas. Os olhos desviam, se fecham ao toque, arredios, ocultando séculos ininteligíveis e anos trêmulos descansados sob a retina envelhecida. As peles estão cada vez mais finas, rasgáveis e espectrais como seda, puídas pelo tempo. Dos poros, o aroma de ausência e abandono, daquilo que as palavras não abarcam sem deterioração e que só o silêncio, em seus incabíveis vácuos, pode guardar.
Olhos esbranquiçados recaem sobre o vazio e enxergam a remota e intransponível lembrança: O rio drenado daquela cidade continua a fluir pela memória, levando consigo corpos putrefatos e carcaças de peixes (sob a pele, carne cinzenta; sobre o toque, fino papel). A grama cresce ao redor de pedras e quinas (Agora invade a casa, dona! Não lhe disseram? Flores rupestres escalam a varanda e mostram seus rostos recém-nascidos ao mundo). A sala está vazia e empoeirada, o papel de parede desmancha e cala seculares lamentos impregnados na tinta.
 E a vizinhança, sobrevive? Como andam as antigas faces, os falatórios intermináveis? O sangue bruto ainda corre  nas veias pulsantes dessa cidade? (A ventania arrasta árvores secas, desmancha a madeira puída, se apossa de cadáveres abandonados à própria sorte. Monstros despertam de sua mítica existência para levar o que restou; a violência das águas acalma antigas comoções daqueles que já se foram. Morte sob os lençóis tremeluzentes.)
 Dona Maria está viva? Lembro de suas feições delicadas, de sua quietude contida, do olhar doce e reprimido (Ela ainda existe, é sabido, mas a tênue linha de sua existência está porosa. As memórias se sobrepõem em busca de um sentido. Escapando da inevitável senilidade, procuram uma linguagem que nos caiba e se deparam com um lúgubre vazio: já não há). 
 Envolta em toda a estranheza do passado, volta a me olhar. Está desconcertada com a ululante realidade que se estende sobre as lembranças de tom sépia como corpo parasitário. Um sorriso sutil se apossa dos lábios finos e envelhecidos e minhas mãos juvenis pousam sobre as suas, ossudas e manchadas, calejadas pelo tempo.
 Questiono-a em silêncio (nos questionamos em silêncio sem saber): O passado permanece real? Tão abstrato e imaculado, resiste ao intermitente choque do hoje? Não há resposta entre os infinitos traços de seu rosto – marcas de outros dias. Ela não me escuta. 
      Volta a perscrutar um ou outro detalhe até que se perca, rastejando novamente ao caos inerente de cada um. Como um bebê, tenta resgatar a tranquilidade estancada no útero materno: essência mais bruta que nos forma. Já não posso puxá-la de volta. Sem retorno e sem saída, o âmago é nossa irreversível prisão. 
       Súbita, com toda a sua doçura, volta a me falar sobre os tempos de outrem. Arranca-os vívidos do canto esquálido da memória (com-toda-a-sua-loucura). Eu enxergo os anos e os séculos, escuto as ensurdecidas vozes e vejo silhuetas desfocadas de desconhecidos entre os espaçamentos de suas palavras. Imagens intraduzíveis, mas pulsantes, feitas da mesma matéria que forma os sonhos.
Vejo-a desabrochar como uma flor. Em seus oitenta e quatro anos, cede o que, entre os meus dedos, sempre escapou; aquilo que incansavelmente tento resgatar do silencioso e antigo vazio que os tempos habitam: vida. 



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