29/03/2013

Divagação marítima


a alma freme no horizonte: não há nada. o céu se mescla ao mar e o mar se mescla ao céu e a terra se torna fina e os olhos se fecham ao o vento e o vento invade a pele e viola a carne e rompe os nervos. sob o corpo, areia molhada - grãos de sal, graúdos, nos mamilos, nos pelos finos, entre os dedos enrugados, perdendo-se nos contornos. a alma freme no horizonte: não há nada. violáceas brilham no céu, cataclismos ao meu redor. não abro os olhos. ouço os passos ao longe, não é ninguém. quem virá, quem virá? esse lugar não tem nome, anônimo país, fronteira de ninguém. quando os olhos se fecham, o universo evanesce; diminui até tornar-se um grande vão que me consome. a alma freme no horizonte: não há nada. depois as formas voltam, assumem-se diante dos olhos, incertas, ausentes de si. árvores mortas plantadas na areia, montanhas recaídas no céu, ramos quebrados por passos pesados. agora os olhos estão fechados; o mundo inexiste - pouco a pouco, a maresia desgasta os contornos e a terra firme é fragilizada, o mar rufa, o céu tremeluz. pouco a pouco a maresia desgasta meus contornos; da pele escapa o sangue fino, os órgãos pulsantes, a alma aflita. tudo se mistura em tons de rubro, bege, azul - eu e o mundo, pele e sangue, mar e areia. estamos de volta ao caos. 

a alma freme no horizonte: não há nada.


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