eu quis dizer pra essa mulher desconhecida do ponto de ônibus que a amo como nunca amei mulher alguma nem minha própria mãe quis perguntar-lhe o nome mas a voz estancou na garganta e voltou como fera acuada para os mais escuros recantos desse ser frágil e tremeluzente que sou e poderia ela me amar mesmo que esteja vestida com roupas tão claras e seja seu olhar de gazela suspeita assim tão leve que suspenda toda a vida bruta que caminha sobre os asfaltos dessa cidade? poderia ela me amar tão livremente quanto a amo libertando minhas correias com os dentes e compreendendo que apesar de tudo não sou nada mais que um bichinho acuado dentro de um ventre escuro? mas quem é ela quem é ela que me transtorna e me deixa o passo um tanto quanto desequilibrado? ela é não mais que uma pessoa em um milhão em um bilhão em um trilhão é como o mendigo e a cortesã que também pegam o ônibus das 4 e enfrentam essa extrema labuta que é ser humano e seguir regras mas eu te digo que por ela adorável anônima eu quebraria as convenções que nossos patronos determinam
dentro do ônibus ela é outra se desbota e seu rosto se torna acuado e fechado e quando se senta nessas poltronas sobre a substância de muitas outras mulheres funde-se a elas e se torna um amontoado de moças desiludidas iludidas pardacentas e austeras mas com o mesmo delicado rosto de porcelana e de repente abre um livro sobre as pernas e logo me surpreendo e contenho um sorriso pois ela é uma dessas garotas que lê Nabokov usa óculos lê Nabokov e pega o ônibus 52 (poderíamos afinal ser uma peça do mesmo brinquedo) sinto o impulso de dizer-lhe que Kafka é tão bom quanto Nabokov e que apesar de tudo Kafka e Nabokov pouco tem a ver mas afinal poderíamos tomar um café naquela lanchonete da esquina e descobrirmos que sim entre Kafka e Nabokov há uma tênue linha que podemos romper mas há entre nós uma velha robusta um homem suado e uma criança que chora e afinal ela não levanta os olhos dessas linhas tortas para averiguar que a olho como um gato perscrutador mas muito provavelmente mesmo me olhando ela não perceberá que a desejo com todas as fúrias de um garoto adolescente pois nasci com a sina de inexpressivos traços
o ônibus para nessa avenida tão vasta e ela guarda o Fogo Pálido na bolsa de camurça e pousa os olhos sobre mim por menos de um minuto uma fração de segundo que dura um século inteiro e de repente se força entre a velha suada o homem robusto e a criança que chora e já não é mais a junção de todas as mulheres do mundo mulheres de Almodóvar mulheres de Bergman agora é não mais que a anônima que lê Nabokov e usa óculos de aros grossos e na manhã seguinte estará na parada às 2 esperando o ônibus das 4