30/04/2013

Belle de Jour


eu quis dizer pra essa mulher desconhecida do ponto de ônibus que a amo como nunca amei mulher alguma nem minha própria mãe quis perguntar-lhe o nome mas a voz estancou na garganta e voltou como fera acuada para os mais escuros recantos desse ser frágil e tremeluzente que sou e poderia ela me amar mesmo que esteja vestida com roupas tão claras e seja seu olhar de gazela suspeita assim tão leve que suspenda toda a vida bruta que caminha sobre os asfaltos dessa cidade? poderia ela me amar tão livremente quanto a amo libertando minhas correias com os dentes e compreendendo que apesar de tudo não sou nada mais que um bichinho acuado dentro de um ventre escuro? mas quem é ela quem é ela que me transtorna e me deixa o passo um tanto quanto desequilibrado? ela é não mais que uma pessoa em um milhão em um bilhão em um trilhão  é como o mendigo e a cortesã que também pegam o ônibus das 4 e enfrentam essa extrema labuta que é ser humano e seguir regras mas eu te digo que por ela adorável anônima eu quebraria as convenções que nossos patronos determinam 

dentro do ônibus ela é outra se desbota e seu rosto se torna acuado e fechado e quando se senta nessas poltronas sobre a substância de muitas outras mulheres funde-se a elas e se torna um amontoado de moças desiludidas iludidas pardacentas e austeras mas com o mesmo delicado rosto de porcelana e de repente abre um livro sobre as pernas e logo me surpreendo e contenho um sorriso pois ela é uma dessas garotas que lê Nabokov usa óculos lê Nabokov e pega o ônibus 52 (poderíamos afinal ser uma peça do mesmo brinquedo) sinto o impulso de dizer-lhe que Kafka é tão bom quanto Nabokov e que apesar de tudo Kafka e Nabokov pouco tem a ver mas afinal poderíamos tomar um café naquela lanchonete da esquina e descobrirmos que sim entre Kafka e Nabokov há uma tênue linha que podemos romper mas há entre nós uma velha robusta um homem suado e uma criança que chora e afinal ela não levanta os olhos dessas linhas tortas para averiguar que a olho como um gato perscrutador mas muito provavelmente mesmo me olhando ela não perceberá que a desejo com todas as fúrias de um garoto adolescente pois nasci com a sina de inexpressivos traços 

o ônibus para nessa avenida tão vasta e ela guarda o Fogo Pálido na bolsa de camurça e pousa os olhos sobre mim por menos de um minuto uma fração de segundo que dura um século inteiro e de repente se força entre a velha suada o homem robusto e a criança que chora e já não é mais a junção de todas as mulheres do mundo mulheres de Almodóvar mulheres de Bergman agora é não mais que a anônima que lê Nabokov e usa óculos de aros grossos e na manhã seguinte estará na parada às 2 esperando o ônibus das 4


28/04/2013

Monções


Através de mim tudo flui 
como um suspiro, uma corrente;
Se fecho os olhos, sinto os dias.
Saboreio cada hora 
Diluindo-se na língua.
Vozes e mais vozes se unindo em uma cantiga
Há no mundo, meu Senhor, poesia?
Se mergulho na corrente da baía 
Há no mundo poesia.
Se estendo os braços sob o sol das 4 horas
Há no mundo poesia.
Se o vento me atravessa, 
me bagunça e me desfaz 
Há no mundo poesia.
Mas agora trovejo, trêmulo como um galho
Solto à ventania

[Quantos mundos, meu Senhor
na poesia?] 


17/04/2013

Cárcere

Postagem original do dia 02/11/11


           Os teus dedos se revolvem contra a minha garganta ardente
           No mais puro dos enlaços, 

           Nua e crua presa em teus braços.
           Resguardando-me com os olhos de um animal suspeito
           Na redoma inatingível dos desejos mais urgentes.


Resistências


Resisto aos teus descasos
As euforias se desgastam 
entre os dedos: pesos de papel.
Se entre nós há decréscimo, 
em mim silêncio
E já não há quem ouse ultrapassar 
as fronteiras erguidas entre nós dois.
Aqui - território proibido
Firme redoma que contém as dores
Malícias e invejas que se interligam
Por nossos corpos porosos.
Resisto aos teus silêncios
Acolho-os com os dedos magros
Eu mesmo bicho silencioso
Desde o nascimento
Arisco já no ventre
Com unhas de carne mole
Me encaixo nos teus moldes
Como o ser mais primitivo.
Não te quero - declaro.
Desconcerto todas as barreiras
Bamboleio em tenras comoções
Não te quero, e já não minto
Pois de fato só existo
Quando em ti não estou contido.
Meu verso só é certo
Se não traça as linhas
De teu corpo túrgido; 
E a poesia, composta de tênue matéria
Jamais será a mesma. 

06/04/2013

Invólucros


Nesses corpos mundanos
Meus olhos descansam
Perfuram e alcançam
A nódoa que pulsa; 
Sob os tecidos
Grossos ou finos
A nudez lateja
Se encerrando em si.
Sugo dos corpos
Veias e fibras
Lendas, mentiras
Mãos que acalentam.
E desses corpos
Malditos
Profanos
Não há toque que me desfaça
Mão que liberte
Represas e rimas.

Meu corpo se fecha
Meus olhos se abrem
Sou pura sombra
Profundo desejo
Da alma que fala
Da carne que pulsa
Do sangue que escorre.
[De tudo que nasce
da nossa
nudez].