18/02/2015

enfado tropical



I
as mariposas jazem nas paredes
cruelíssimas e suntuosas.

não há ventania que as arraste da indiferença.

II
as palmeiras caminham ao cair da noite.
movem-se sutis, docilmente traiçoeiras
arrastando grotescas raízes sob a terra.

entre si sussurram verdades sacrílegas
preciosíssimos mistérios deste mundo e do outro.
(para ouvi-las, meu bem
é necessário não olhá-las)

III
na areia há carcaça de bicho ancestral
garrafas soterradas pela metade
espuma seca
arraia podre, tripa de peixe:
carcará revoa baixo, silencioso
planando soturno.

pensei ter visto teu rosto dentro de uma concha.

IV
algum dia o mar arrastará nossos corpos
belos e multicoloridos
vestidos de algas e corais:
olhos abertos, lábios salobros, pele de cetim.

a terra será nossa até que a maré encha
e nos devolva à grandeza.

V
tempo, tempo:
as ondas rufam, o vento sibila.
levantar uma oração a quem?
aqui é terra de ninguém. 
maresia corrói rezas:
não há deus que por mim vigie ou a mim ouça.

VI
as libélulas jazem mortas nos copos d'água
nos canteiros do jardim
nos telhados desbotados.
não há rufo do mar, silvo do vento.

o silêncio a tudo consome como doença.

VII
até quando durará a espera?
paredes desabaram, cores descascaram.
maresia devora minha carne.

há beleza nesse azul, nesse sol, nesse sal.

VIII
lembre-se de mim:
serei a areia que fustiga tua pele.
o mar que te puxa e revolve
a voz que dança com o vento.

serei a inefável grandeza
que consome, afaga 
e destrói.

procure-me dentro das conchas
perdido entre as algas que pousam na areia.

15/02/2015

confessional


extirpe a métrica
trucide as suavidades
quero me ser 
para além de rimas 
e formalidades.




13/02/2015

o que sou

"Please release
This pressure off me"
Björk - Vertebrae by Vertebrae

escorre das frestas, dos olhos, da boca
escorro no chão, feito tinta misturo-me. 
eu chamo, eu induzo, eu quero, eu desejo.
inquietas loucuras na ponta da língua trauteiam.

entredentes
:tremendo tremendo tremendo:
lembrança que envolve
daninha consome:
agonizo.

:suando suando suando:
mordendo arranhando 
tossindo atinando
querendo outra vez.
camisa-de-força, seringa
faca na boca lasciva.

mais se escapa

e mais se está
sob os pés
o abismo.

:fugindo fugindo fugindo:
eu quero estar lá
eu quero voltar
meu corpo treme
sublimando-se pulsa
latejando 
roxo
clamando 
alforria e nem 
os silêncios
nem os escuros
nem as cortinas:
paliativo não há.

:voltar voltar voltar:
um ofego uma fuga
um afago uma surra:

teu toque rompeu a represa
violou as fronteiras
libertou a besta
e mundo afora
feral me entrego: 
sem fuga, placebo
sem culpas, sem pejo
livre de martírios
cheio de desejos.


10/02/2015

hannibal ante portas


diga-me o nome daquele
que sei cá estar quando não o vejo
que sei-me ser quando não me tenho
que perdura para além do que se sabe

formem-lhe o rosto diante de mim 
penumbra, fumaça e espelhos:
quem é ele que me acorrenta os braços
bamboleia as pernas e amordaça a voz?

nessas ruas que ando
o sinto.
assassino espreitando no escuro.
o ouço seguindo
extensão do caminho
terceiro passo ecoando.

dê-me retrato falado:
seus nomes, suas cores, seus traços. 
descubra-o da negra cortina
que cobre seus atos.

clamo:
diga-me que há muito cá ele já não está
e o que me persegue é tremulante sombra
daquele que um dia
por aqui
nunca esteve.

08/02/2015

rascunho sobre d.


pensei ter visto teu rosto 
empoleirado na janela
ouvido tua voz sob a bossa-nova 
de 60
sentido os teus cheiros nas gavetas velhas
espreitado tua sombra através dos arabescos.
o toque acidental de um estranho na rua
me pôs a pensar que agora já faz um tempo
e que tempo feito é tal qual tempo perdido.
nas ruas avenidas janelas alamedas
vez ou outra eu ainda te caço
temendo, de coração rijo e engaiolado
te encontrar nas folhas das palmeiras
nas xícaras de café
no virar de cada esquina 
ou nos ônibus lotados.
se qualquer dia desses eu te acho
seguirei meu caminho, inviolável
e continuarei a procurar
nos riscos paredes e traços
sabendo que só nas procuras
quero te encontrar de novo.


03/02/2015

o que somos


se antes houvesse de ti subtraído
todas as palavras bonitas
atos de polidez
e farsantes monólogos
sobraria carcaça seca 
exposta ao sol
fino verme avariado 
sob corpo moreno
e delgado.

retirassem de mim 
o que tenho:
versos, papel e caneta
pele e tripas restariam
um vazio em carne viva
a pulsar
no meio do crânio.

eu sou como você:
mediocridade 
dos pés à cabeça
e por isso 
já não nos servimos
mais.

deixemos, então, de discursos
e rasos poemas. 


02/02/2015

rascunho sobre f.



sento-me para escrever sobre f.
e o que há para se dizer sobre
f. que já não tenha sido dito
ou que esteja constantemente
a se dizer e portanto já se é
sabido?

Marca de batom rosa no copo de café, roupa florida jogada no chão, cheiro de lavanda na borda do pano de mesa - ela está sempre a deixar para trás uma evidência de que aqui esteve, como se temesse ser arrastada para o vão das coisas esquecidas, descendo num espiral de ausências irresgatáveis. F. não sabemos se é prosa ou

poesia
com toda a sua vermelhidão e pele morena acanelada 
cabelos que agora louros já foram
castanhos e arruivados
olhos de um negro maciço que ninguém
ousaria dizer já terem sido de profundo verde
lodoso como as águas daquele rio
em que um dia quase se afogou
mas essa é história para outra 
ocasião.


f. está sempre a falar com incrível rapidez como se temesse a quietude pois a quietude diz nos impele a pensar e o pensar sobre o que não deve ser pensado envenena a alma e fala com tal urgência como se o tempo estivesse constantemente a lhe escorrer pelas mãos largas de ampulheta tal qual areia encerrada entre os dedos conta aos estranhos nas ruas sobre sua vida e suas dores tentando expressar com a verborragia o indizível e traiçoeiro vazio que espreita sob as costelas e ameaça criar forma romper vir ao mundo rastejar para fora de si na forma de um grito que estraçalharia suas cordas vocais o que f. não sabe é que vindas ao mundo as palavras tornam-se outras e traiçoeiramente se enveredam por outros caminhos criam outras verdades que por sorte não são menos genuínas do que a verdade que se quer entregar

- Sim, doutor, há uma dor aqui, aqui, aqui.
- Eu lamento, senhora, informar-lhe que para isso não há ainda medicina exata.

enquanto não, pílula atrás de pílula, copo atrás de copo: remédio pra curar o efeito colateral do remédio que curou a dor primeira. não sei o que será de mim depois de tanto. diabos!

(sai, f., vê se me deixa quieto com os meus demônios, enlaçado em meus vícios e silêncios. sei que teus olhos estão sempre a querer me salvar, retirar-me desse limbo em que me fecho, mas eu, como você, sou alma perdida. reside, entre nós, singular diferença: abarco a minha sina).

f. entretanto jamais perderá
a esperança de um novo renascer
dia após dia aos céus levantará
uma prece
pois crê 
em verdades providenciais.
graças a deus: ao menos um de nós 
ainda tem algo que lhes reste.


(Ande, dividiremos uma cerveja, nos cegaremos às efemeridades. Algum dia, quem sabe, nos fique uma esperança, rebarba qualquer, e nos abraçaremos sem dizer palavra, pois, no fim das contas, somos sempre nós dois a sobrar).