I
as mariposas jazem nas paredes
cruelíssimas e suntuosas.
não há ventania que as arraste da indiferença.
II
as palmeiras caminham ao cair da noite.
movem-se sutis, docilmente traiçoeiras
arrastando grotescas raízes sob a terra.
entre si sussurram verdades sacrílegas
preciosíssimos mistérios deste mundo e do outro.
(para ouvi-las, meu bem
é necessário não olhá-las)
é necessário não olhá-las)
III
na areia há carcaça de bicho ancestral
garrafas soterradas pela metade
espuma seca
arraia podre, tripa de peixe:
carcará revoa baixo, silencioso
planando soturno.
pensei ter visto teu rosto dentro de uma concha.
IV
algum dia o mar arrastará nossos corpos
belos e multicoloridos
vestidos de algas e corais:
olhos abertos, lábios salobros, pele de cetim.
a terra será nossa até que a maré encha
e nos devolva à grandeza.
a terra será nossa até que a maré encha
e nos devolva à grandeza.
V
tempo, tempo:
as ondas rufam, o vento sibila.
levantar uma oração a quem?
aqui é terra de ninguém.
maresia corrói rezas:
não há deus que por mim vigie ou a mim ouça.
aqui é terra de ninguém.
maresia corrói rezas:
não há deus que por mim vigie ou a mim ouça.
VI
as libélulas jazem mortas nos copos d'água
nos canteiros do jardim
nos telhados desbotados.
nos telhados desbotados.
não há rufo do mar, silvo do vento.
o silêncio a tudo consome como doença.
VII
até quando durará a espera?
paredes desabaram, cores descascaram.
maresia devora minha carne.
há beleza nesse azul, nesse sol, nesse sal.
VIII
lembre-se de mim:
serei a areia que fustiga tua pele.
o mar que te puxa e revolve
a voz que dança com o vento.
serei a inefável grandeza
que consome, afaga
e destrói.
e destrói.
procure-me dentro das conchas
perdido entre as algas que pousam na areia.