F. a partir de certo ponto enclausurou-se num silêncio denso, assim tão espesso que às vezes eu chegava a tocá-lo, com espanto. Ela já não estava ali; caminhava de um cômodo para o outro como se há muito houvesse deixado de existir, e mesmo fisicamente tornava-se menos nítida: os cabelos longos e louros quase se dissipando; a pele negra translúcida; os olhos antes vívidos agora tão baços que era quase como olhar para o fundo de um rio pantanoso, de revoltoso, enigmático leito. Nossos dias eram preenchidos por aquele langor de atos; ela nada falava por já não lhe sobrarem palavras, eu nada falava por saber que cada palavra minha sucumbiria rapidamente diante do inamovível muro erguido entre nós dois - ou, melhor dizendo, entre F. e o mundo. Às vezes tentava recuperá-la através dos mínimos detalhes: um amontoado de cabelo no ralo da pia; o copo deixado há dias no mesmo cantinho, ao lado do bebedouro, com a marca do batom vermelho; as sandálias abandonadas, melancólicas debaixo da rede; o cheiro do perfume masculino que seu amigo - Antônio? - havia lhe dado, impregnado nas almofadas; os óculos de aro vermelho com uma das pernas tortas; sua voz, esta não real, mas pedaço de lembrança, mandando-me ir ali, acolá, pegar aquilo, comprar isso - comprimidos, conta-gotas - falando-me que há uma dor aqui, há uma dor ali, há uma dor que não sei exatamente de onde vem mas aqui está meu deus será que há medicina para isso? F. costumava falar bastante; suas ideias nunca chegavam a se completar - até que calou-se; e aí pareceu-me, também, que o mundo todo havia se calado, mesmo que lá fora todo o turbilhão persistisse imutável - pedestres carros avenidas ônibus pássaros árvores gritos sussurros diálogos. Retomo F., prendo-a entre meus dedos, ainda que lá esteja ela, deitada, silenciosa, pacífica. Parece-me que no momento em que eu virar meu rosto, F. sumirá. E só então notarei, nem tão surpreso assim, que F. nunca esteve aqui.