veio a brisa e levou
assim direi quando perguntarem
onde estão teus olhos, tua boca
teu riso, teus dentes
teu rosto grudado ao meu
como segunda pele;
veio o tempo e sanou
de repente me dissolvi
sobre a mesa suja de um bar qualquer
num copo de cerveja pela metade
não é parte de mãe nem de pai
o semblante que agora visto
o corpo que habito
o riso que rio
o descaso que sou
mas carcaça moldada
soldada serrada
fortemente pregada
à carnadura de ontem.
talvez te encontrem
nos pesos que levo
nos choros de enfado
no arroubo da dor
mas não, não mais tanto pareço
com aquele que sou
e se quiserem me buscar em ti
traçando os pontos
ligando sinais
avise que estou
perdido na guimba de outro cigarro
misturado ao suor dos homens que amei
pois tanto foi o tempo levado
parece-me é que nada sobrou.
se caminho este passo
no escuro
pronunciando teu nome
com a fria indiferença de um oráculo
é talvez porque muito ainda se tenha
a falar, e ainda assim nada falo:
entro natimorto
no ventre da noite
pra rebentar com o grito ancestral
de quem nasce de novo.